A Bíbilia da Disforia de Gênero

Sumário:

Introdução

Trans·gê·ne·ro - adjetivo
Denotando ou relacionando a uma pessoa cuja sensação de identidade e gênero não corresponde ao sexo designado ao nascer.

Desde que a civilização humana existiu, houve pessoas cujas experiências internas de gênero não se alinham às características físicas de seus corpos. As Gala, uma classe de sacerdotes de Império Sumério, existiram há mais de 4’500 anos. As culturas indígenas da América do Norte reconheciam um terceiro gênero bem antes do colonialismo europeu e ainda o reconhecem até hoje. O imperador romano Elagabalus (218 DC) insistia em ser referido como Senhora ao invés de Senhor, e até ofereceu uma recompensa para qualquer um que pudesse fazer cirurgia de de reconstrução genital.

Apesar disso, porém, o entendimento moderno da experiência transgênero só tem existido há aproximadamente 130 anos. Mesmo a palavra “transgênero” remonta apenas a 1965, quando John Oliven a propôs como uma alternativa mais exata ao termo “transsexual” cunhado por David Cauldwell em 1949, o qual se substituiu o termo alemão “Transvestitismus” de Magnus Hirschfield de 1910.

Uma pessoa ser transgênero é ela ter uma identidade de gênero que não corresponde ao que lhe foi presumido que ela tivesse com base na genitália com a qual ela nasceu. Isso significa que a pessoa nascida com um pênis é na verdade uma menina, que a pessoa nascida com uma vulva é na verdade um menino, ou que uma pessoa nascida com qualquer configuração genital pode não se encaixar totalmente em qualquer lado do espectro de gênero e que é não-binária.

Uma pessoa trans pode vira reconhecer isso em qualquer ponto de sua vida. Algumas crianças identificam isso tão logo são capazes de compreender o conceito das diferenças entre os sexos, outros não sentem nada até o início da puberdade, e outros podem não perceber que qualquer coisa está errado até serem adultos. Muitas pessoas simplesmente nunca foram expostas a ideia de que seu gênero poderia não corresponder ao seu sexo de nascimento, ou como é essa sensação, e portanto simplesmente aceitaram seu destino.

Ainda mais comum é a percepção de que embora tivessem sentimentos sobre serem infelizes com o gênero que lhes foi designado ao nascer, eles acreditam que isso não é o mesmo que as pessoas transgênero sentem. Alguns sentem que um desejo de ser transgênero e ter a transição disponível é algum tipo de desrespeito às “verdadeiras” pessoas transgênero que sabiam que eram na verdade meninos ou meninas “nascidos no corpo errado”. Essas narrativas da experiência transgênero que foram espalhadas pela mídia popular criam uma impressão bem falsa do que significa ser transgênero e qual é a sensação de crescer sendo transgênero.

Essa experiência de descontinuidade entre o eu interno e externo é o que descrevemos como Disforia de Gênero. Toda pessoa trans, independentemente de sua posição dentro ou fora do binário de gênero, experimenta alguma forma de disforia de gênero. Isso é meio que um tópico político nas comunidades trans, já que diferentes grupos tem suas próprias ideias do que Disforia de Gênero é, como ela se manifesta, e o que qualifica alguém para ser trans. Em geral, porém, esse debate é fútil e inútil, já que a definição ao topo desta página já engloba o começo e o fim de como esses termos se misturam.

O propósito deste site é documentar as várias formas em que a Disforia de Gênero pode se manifestar, bem como outros aspectos da transição de gênero para servir de guia aqueles que estão questionando, aqueles que estão começando a sua jornada transgênera, aqueles já em suas trilhas e aqueles que simplesmente querem ser melhores aliados.

O que é gênero?

Gê·ne·ro - Substantivo
O leque de características pertencente a, e diferenciando entre, feminidade e masculinidade. Dependendo do contexto, essas características incluem sexo biológico, estruturas sociais baseadas em sexo (ex. papéis de gênero), ou identidade de gênero (o senso pessoal do gênero de alguém).

Se você traçar a etimologia da palavra a suas raízes latinas, gênero simplesmente significa “tipo”.

Muitas pessoas atribuem o termo ao psicólogo John Money, que propôs usar “gênero” em 1955 para diferenciar o sexo mental do sexo físico. Entretanto, John Money não foi o primeiro a fazê-lo. A antropóloga cultura Margaret Mead usou o termo em 1949 no seu livro “Male and Female” (em português: Masculino e Feminino ou Homem e Mulher) para distinguir entre comportamentos e papéis de gênero e sexo biológico. O Jornal Americano de Psicologia (vol. 63, no. 2, 1950, pp. 312) assim descreve o livro:

Um livro que dá além de sua premissa; pois ele informa o leitor sobre “gênero” tanto quando sobre “sexo”, sobre papéis masculinos e femininos, bem como sobre macho e fêmea e suas funções reprodutivas.

A Margaret Mead move além da delineação específica para um comparação mais geral entre homem e mulher em várias comunidades, finalmente chegando a uma análise de padrões de sexo em nosso próprio meio para nosso próprio tempo.

Cog @CognitiveSoc

@KatyMontgomerie Magnus Hirschfield estava escrevendo sobre terceiros gêneros e transição entre sexo e gênero no fim dos anos 1800.

Esse livro dele, chamado "What do people need to know about the Third Gender?" (em português: "O que as pessoas precisam saber sobre o Terceiro Gênero?") foi escrito em 1901.

Essas coisas não são novas, apenas estavam de lado.

Darkly Dai (Now with added werewolf) @Darkly_Dave

Sempre que as pessoas tentam dizer que pessoas trans são um fenômeno ou moda recente, eu penso nessa foto do institut für sexualwissenschaft (Alemanha 1919-1933) do Magnus Hirschfield, ele está de óculos com grande bigode, todos os outros nessa foto são trans. É dos anos 1920.

O sexo humano é dividido em três categorias:

  • Genótipo: O cariótipo geneticamente definido de um organismo (XX, XY, e todos os seus variantes)
  • Fenótipo: As observáveis características sexuais primárias e secundárias (genitais, distribuição de músculos e gordura, estrutura óssea, etc)
  • Gênero: As características sexuais não-observáveis, o modelo mental interno do sexo de uma pessoa e a forma como ela o expressa.

Qualquer desses três aspectos pode cair em uma posição em um intervalo de valores. Suas aulas de ciências no fundamental provavelmente te ensinaram que o genótipo é binário, ou fêmea (XX) ou macho (XY), quando a realidade é que existem uma dúzia de outras permutações que podem ocorrer em seres humanos.

Da mesma forma, muitas pessoas acreditam que o fenótipo também é binário, mas a biologia já reconheceu por centenas de anos que quando você faz um gráfico com as características sexuais de uma população, você acaba com uma distribuição bimodal na qual a maioria da população cai dentro de um percentil de dois grupos. Isso significa que algumas pessoas irão, simplesmente por natureza de como a vida funciona, cair fora das duas pilhas típicas. Muitas pessoas caem no meio, com características de ambos os sexos.

Gênero, entretanto, é bem mais … esotérico. Há muitas formas diferentes pelas quais as pessoas tentaram ilustrar o espectro de gênero, mas nenhuma conseguiu capturá-lo bem minuciosamente, porque o espectro em si é um conceito bem abstrato.

Alguns dos métodos usados para descrever gênero
Fontes: [Tumblr] [TransStudent.org]

O resumo disso é, algumas pessoas são bem macho, outras bem fêmea, algumas pessoas não sentem gênero algum, algumas sentem ambos, algumas estão cravadas no meio, algumas caem nas fronteiras. Algumas pessoas oscilam por todo o espectro de formas imprevisíveis, mudando como o vento. Apenas um indivíduo pode identificar seu próprio gênero, ninguém pode ditá-lo por ele.

Gênero é parte construção social, parte comportamentos aprendidos, e parte processos biológicos que se formam bem cedo na vida.

As evidências atuais parecem sugerir que o gênero de uma pessoa é estabelecido durante a gestação enquanto o córtex cerebral é formado (mais sobre isso na seção de Causas da Disforia de Gênero). Esse modelo mental então informa, em um nível subconsciente, quais a quais aspectos do espectro de gênero uma pessoa tenderá. Isso afeta comportamento, percepções de mundo, a forma como nós experienciamos atração (separada da orientação sexual e das influências hormonais) e como nós nos vinculamos aos outros.

Gênero também afeta as expectativas de que o cérebro tem para o ambiente no qual reside (o seu corpo), e quando o ambiente não cumpre essas expectativas, o cérebro envia sinais de alerta na forma de depressão, despersonalização, desrealização e dissociação. Essas são as formas subconscientes do cérebro de nos informar de que algo está bem errado.

Hab·i·tus - Substantivo
Hábitos, habilidades e disposições socialmente arraigados. A forma como uma pessoa percebe e reage ao mundo.

No lado social, gênero envolve o nosso habitus: nossa apresentação, nossos maneirismos e comportamentos, como comunicamos, como reagimos, quais são nossas expectativas da vida, e quais papéis que podemos cumprir enquanto andamos pela vida. A autora Susan Stryker descreveu habitus em seu livro Transgender History (em português: História Transgênera):

Muito do habitus envolve manipular nossas características sexuais secundárias para comunicar aos outros nosso senso de quem sentimos ser — seja com o balanço dos quadris, falar com as nossas mãos, ganhar músculos na academia, crescer o cabelo, vestir roupas que enfatizam nosso decote, depilar nossas axilas, permitir restolho de barba visível em nossas faces, ou falar com inflecção crescente ou cadente no fim de nossas frases. Geralmente essas formas de movimento e estilização se tornaram tão internalizadas que pensamos nelas como naturais muito embora — dados que elas são todas coisas que aprendemos por observação e prática — elas possam ser melhor entendidas como uma “segunda natureza” culturalmente adquirida.

De fato, esses são todos fatores culturais; coisas que foram desenvolvidas dentro da população ao longo do tempo. Independentemente de serem essencialmente “inventadas”, elas ainda são fortemente generizadas e uma pessoa tende a se conectar com os habitus generizados de seu eu interior, mesmo sem perceber que está fazendo isso. Quando nós somos negados acesso a esses aspectos sociais, isso resulta em desconforto com a nossa posição social na vida.

Os experimentos de John Money tentaram confirmar sua crença de que gênero é inteiramente construção social, e que qualquer criança pode ser criada a crerem ser qualquer gênero que lhes fosse ensinado. Seu experimento foi um a falha massiva (veja na seção de Disforia Bioquímica). Gênero não muda, todo ser humano é o mesmo gênero aos 40 que eram aos 4. O que muda é o nosso entendimento pessoal de nosso gênero conforme maturamos enquanto indivíduos.

Esses sintomas negativos (depressão, desrealização, desconforto social) são sintomas de Disforia de Gênero.

O que gênero não é é orientação sexual. Nós descrevemos a orientação usando termos relativos ao gênero do indivíduo (homossexual/bissexual, etc), mas o gênero em si não afeta a sexualidade e sexualidade não tem papel em gênero.

O que significa ser Não-Binárie?

Não-Binárie pode ser basicamente simplificado como uma ausência de afinidade exclusiva para macho ou fêmea. Isso pode ser uma falta de afinidade a ambas as identidades (agênero), uma total afinidade a ambos (bigênero), uma afinidade balanceada a ambos (andrógeno), uma afinidade que varia de dia para dia (gênero-fluido), uma afinidade parcial (demigênero), ou até mesmo uma afinidade simultânea com o inteiro espectro de gênero (pangênero).

Pode ser uma afinidade com alguns aspectos de gênero mas não outros. Por exemplo, uma demigirl (demi- = semi ou meio, girl = menina, demigirl = semi-menina ou meio-menina) pode ser alguém designada fêmea ao nascer que só sente conexão parcial com a mulheridade e feminidade, ou pode ser alguém designado homem ao nascer que está tomando terapia hormonal para aliviar a disforia física, e que tem um fenótipo feminino, mas não experiencia uma forte conexão aos aspectos sociais da mulheridade.

Em termos generalistas, esse livro ira descrever gênero no senso de identidades binárias (macho/fêmea) vs identidades não-binárias, mas isso pé puramente pela facilidade de escrita. Por favor saiba que a profundidade da experiência e expressão de gênero é bem, bem mais complicada do que essa simples divisão.# Uma Breve História da Disforia de Gênero

Em 1948, o notório sexólogo Dr. Alfred Kinsey (sim, aquele Kinsey) foi contatado por uma mulher cujo filho homem inflexivelmente insistia que ele era na verdade uma menina e que algo ocorrera bem errado. A mãe, ao invés de tentar reprimir sua filha, desejou ajudá-la a se tornar quem ela sabia ser. Kinsey entrou em contato com um endocrinologista alemão Dr. Harry Benjamin para ver se ele poderia ajudar a criança. Dr. Benjamin desenvolveu um protocolo de terapia de estrogênio para a adolescente, e trabalhou com a família para encontrar ajuda cirúrgica.

Benjamin foi então, ao longo de sua carreira, refinar o seu protocolo e tratar milhares de pacientes com sentimentos similares. Ele se recusou a receber pagamento por seu trabalho, tomando satisfação no alívio que deu a esses pacientes, e usando seu tratamento para melhor entender seu entendimento da condição. Ele cunhou um termo para essa sensação de incongruência em 1973: Disforia de Gênero. Infelizmente, esse termos não foi usado nos Estados Unidos até 2013, com a Associação Americana de Psiquiatria optando ao invés pelo termo Desordem de Identidade de Gênero.

Se você for uma pessoa trans lendo isso, você talvez já tenha ouvido o nome Harry Benjamin antes, mas provavelmente não em um contexto favorável. Em 1979 seu nome foi usado (com permissão) para formar a Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin (HBIGDA), que publicou o Standards of Care (sigla: SoC, literalmente: Normas de Cuidado) para pessoas trans. Esse SoC acabou conhecido como Regras de Harry Benjamin, e eram infamas por limitar como a Disforia de Gênero poderia ser diagnosticada. Pacientes eram colocados em uma escada de seis níveis baseada no seu nível de miséria e disfunção sexual. E se você não estivesse no nível 5 ou acima, classificado como “Verdadeiro(a) Transexual”, você era geralmente rejeitado para tratamento.

O problema era que os níveis 5 e 6 exigiam que você fosse exclusivamente atraído ao seu próprio sexo de nascimento. A transição precisava te fazer hétero, não gay, e e bissexuais não eram permitidos. Você também precisava estar experimentando severo desconforto com o seu corpo e genitais, e já estar vivendo como seu verdadeiro gênero sem tratamento. Muitas pessoas trans evadiam essas limitações através de instruções comunitárias e apresentações performativas, mas para muitas pessoas (eu inclusa) se acreditava que se você não se encaixasse em todos os critérios, você não era trans o bastante para transicionar.

Em 2011, a HBIGDA se reorganizou e respondeu às montantes pressões no entendimento e aceitação de pessoas trans, tomando o novo nome Associação Profissional Mundial para Saúde Transgênera (WPATH). Sob a liderança de pessoas trans (algo inédito na organização), a WPATH então procedeu a publicar uma versão inteiramente nova do Standards of Care (SoC, versão 7, a primeira em dez anos) que abandonou a Escala de Benjamin, focando em sintomas específicos do indivíduo e inteiramente desconectando gênero de sexualidade. Dois anos depois, em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria (APA) mudou seus critérios diagnósticos para corresponder ao SoC da WPATH. Na 5ª versão do seu Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), a APA substituiu Desordem de Identidade de Gênero com Disforia de Gênero. Com essa mudança, a transição médica se tornou disponível a todas as pessoas trans nos Estados Unidos.

Esse é o porquê a presença de pessoas trans tem subitamente explodido ao redor do mundo. Com acesso mais fácil, vem maiores números e com eles bem maior visibilidade que traz mais com conscientização e com isso vem mais pessoas acessando o tratamento. Um estudo conduzido em 2014 mostrou que 0,6% dos adultos e 0,7% dos jovens nos Estados Unidos se identificam como transgênero, e uma pesquisa conduzida pela Associação de Gays e Lésbicas Contra a Discriminação (GLAAD) em 2017 mostrou que surpreendentes 12% dos respondentes entre 18 e 34 não se identificam como cisgênero.

Pessoas trans estão saindo do armário; nós estamos em todos os lugares.

Mas o que é Disforia de Gênero?

Dis·fo·ri·a - Substantivo
Um estado de inquietação ou generalizada dessatisfação com a vida. O oposto de euforia.

Existe um comum equívoco tanto entre pessoas cisgêneras quanto transgêneras que Disforia de Gênero refere-se exclusivamente ao desconforto físico com o próprio corpo. Entretanto, essa crença de que desconforto corpóreo é central a Disforia de Gênero é na verdade um equívoco, e não é nem um componente majoritário do diagnóstico da Disforia de Gênero. A Disforia de Gênero cruza um grande número de aspectos da vida, incluindo como você interage com os outros, como você se veste, como você se comporta, como você se encaixa na sociedade, como você percebe o mundo ao seu redor, e sim, como você se relaciona com o próprio corpo. Consequentemente, proponentes do SoC 7 da WPATH e do DSM-5 tomaram o hábito de dizer que você não precisa de disforia para ser transgênero. Essa afirmação é geralmente repetida como um mantra, pois ele informa as pessoas que não sentem significativo desconforto com o corpo que elas talvez sejam trans também.

Em princípio, a Disforia de Gênero é uma sensação de algo intrínseca erroneidade com si mesmo. Não há lastro lógico para essa erroneidade, não há nada que a explica, você não consegue descrever o porque você se sente assim, ela simplesmente está lá. Coisas na sua existência estão erradas e mesmo sabendo quais coisas são incorretas pode ser difícil identificá-las apropriadamente.

A forma como costumo a descrever é como usar uma luva de adulto quando você é criança. Você pode por a sua mão na luva, e seus dedos podem entrar nos dedos da luva, mas a sua desteridade com a luva é severamente debilitada. Você também pode ser capaz de pegar algo, mas ser incapaz de manipulá-lo como um adulto conseguiria. As coisas simplesmente não estão bem certas.

Evey Winters descreve assim em seu post Disforia.

Você já estava sentado em algum lugar público ou formal e do nada a sola do seu sapato coça? Você não pode remover seus sapatos ali e coçar o seu pé, então você aguenta a sensação morrendo dentro de você enquanto essa coceira cresce e cresce até que você está pronto para matar a próxima pessoa que falar com você.

Ou quando eu era mais jovem e costumava assistir TV à cabo nas manhãs antes da escola. Como era TV à cabo na parte rural da Virgínia Ocidental (estado dos EUA) no começo dos anos 90, de tempos em tempos eu ligava o meu canal favorito e assistiria meus shows enquanto eu comia maple oatmeal de café da manhã e assistia Power Rangers — mas o áudio vinha de outra estação (geralmente do canal de tempo meterológico). O vídeo estava okay. O áudio estava okay. Mas o desencontro entre eles? Esse era o tipo de frustração que ficava com você o dia inteiro quando criança.

É a sensação de que você tem quando você pede uma refrescante Coca Diet e o garçom responde: “Pode ser Pepsi?”

É saber que algo está errado e não ser capaz de fazer coisa nenhuma sobre isso.

A Disforia de Gênero é, em sua essência, simplesmente as reações emocionais ao cérebro sabendo que algo não encaixa. Essa incongruência é tão profunda dentro dos subsistemas do cérebro que não há óbvia mensagem de qual é o problema. A única forma que temos para identificá-lo é através das emoções que ele dispara. Nosso consciente ou recebe feedbacks positivos (euforia) ou negativos (disforia) de acordo com quão bem o nosso ambiente se alinha à nossa sensação interna de si mesmo. Parte da transição é aprender a reconhecer esses sinais.

Pessoas cisgêneras também recebem esses sinais, como esses sinais geralmente se alinham com seus ambientes, elas os tomam por garantidos. Entretanto, existiram algumas ocasiões notáveis em que pessoas cisgêneras foram colocadas em uma situação em que elas experimentaram disforia de gênero. Tentativas de criar crianças cisgêneras como o sexo oposto (aviso de gatilho: suicídio) sempre caíram em fracasso quando essas crianças, invariavelmente, se declaravam diferentemente.

Esses impulsos de euforia e disforia, excitação e aversão, eles sempre se manifestam em muitas formas diferentes, algumas óbvias, algumas muito mais sutis. Disforia muda com o tempo também, tomando novas formas conforme o indivíduo move de pre-consciência rumo a entendimento e através da transição. A meta desse livro é desmontar essas manifestações em suas distintas categorias e descrevê-las para que outros possam aprender a reconhecê-las.

Entretanto, primeiro eu quero destacar algo muito importante, tão importante que estou colocando em negrito:

TODA PESSOA TRANS EXPERIMENTA UM CONJUNTO DIFERENTE DE FONTES E INTENSIDADES DE DISFORIA

Não há uma única experiência trans, não um conjunto padrão de sensações e desconfortos, não existe a uma narrativa transgênera verdadeira.

Ok, com esse aviso fora do caminho, vamos para os pontos cernes.

Euforia de Gênero

Eu·fo·ri·a - Substantivo
Uma sensação ou estado de intenso entusiasmo e felicidade. Exaltação, alegria.

Antes que eu possa falar sobre desconforto, eu preciso falar sobre alívio. Euforia de Gênero é um sinal de Disforia de Gênero. Você pode estar se perguntando, “como pode a felicidade ser tristeza?” A resposta é simples.

Imagine uma pessoa que nasceu numa caverna e que gastou sua inteira vida vivendo no subterrâneo, e que sua única fonte de iluminação sendo velas e lâmpadas à óleo. Imagine que ela nunca esteve na superfície, ela nem sabe que a superfície existe. Então, um dia, um desmoronamento ocorre em um túnel lateral e revela uma abertura para a superfície. Luz solar adentra a abertura e de início essa luz é cegante e faz a pessoa correr em medo. Mais tarde ela retorna à abertura e conforme os olhos dela se ajustam eles veem através do buraco e veem um brilhante mundo cheio de cores que ela nem sabia que existiam.

O mundo é amedrontador, é enorme e cheio do desconhecido, então ela rasteja de volta à caverna por segurança mas o buraco ainda está lá, e ela ainda vê a luz toda vez que passa por ela. Gradualmente ela espia para fora mais e mais frequentemente, mais e mais longe da abertura. Ela começa a querer aquela luz e ela começa a achar razões para visitá-la mais frequentemente.

Eventualmente ela reconhece que ela não quer mais voltar para o buraco. Ela tem que voltar pois é onde sua família e seus amigos estão, mas esse lugar é tão melhor, ela quer ficar aqui. Voltar para o buraco causa sensação de algo errado, começa a doer estar tanto no escuro.

Isso é como a Euforia de Gênero é. Ela é como flashes de uma luz que pode parecer muito brilhante para lidar de início, muito confusa para entender, mas conforme o tempo se passa você se torna mais acostumado a ela e você percebe que é nela que você pertence, e a escuridão se torna disforia.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Peixes não notam a água. Ela está sempre ao redor deles. A maior parte dos peixes nunca saiu da água.

E geralmente, pessoas trans em negação não notam a disforia de gênero que inunda suas vidas diárias.

Eu vou listar algumas idiossincrasias e desconfortos que eu não percebia que eram disforia:

Muitas pessoas trans não tem ideia de quanta dor elas sentem até que elas encontrem pequenos pedaços de alívio. Cosplay, atuação em teatro, drag, jogos de interpretação de papéis; pequenas incursões em um gênero diferente daquele no qual elas viveram. Elas podem descobrir que se sentem apenas um pouquinho mais confortáveis. Elas inventarão desculpas para o porquê (“Se eu vou ter que ficar olhando para a bunda de um personagem, melhor que seja a bunda de uma menina.” em jogos de perspectiva de terceira pessoa), elas tentarão se convencer que é apenas por diversão, ou uma expressão artística. Elas modem contar a si mesmas que os fragmentos de alegria que elas sentem ao ouvir pronomes distintos é apenas por ser uma novidade. Mas logo elas se encontrão procurando por razões para fazê-lo mais frequentemente. Com frequência cada vez maior, elas interpretam personagens de um sexo diferente, costuram mais fantasias, compram mais roupas, atuando mais frequentemente. Você se encontrará querendo fazer mais disso o tempo inteiro, porque isso simplesmente te faz sentir melhor que a sua vida real, e ser “você” começa a doer. Mais cedo ou mais tarde, o velho você se torna a vestimenta fantasia.

Isso é a mais fundamental razão pelo qual nós como comunidade dizemos “você não precisa de disforia para ser trans”, porque tinta preta no quadro preto simplesmente não é visível sem uma minuciosa inspeção e muita luz.

Tudo que pode ser fonte de disforia tem uma igual e oposta euforia.

gen·drar - Verbo, neologismo, anglicismo

Perceber como ou tratar com um determinado gênero.

Exemplo

Ex: “Em uma entrevista, ele até notou que ele 'se vestia, agia e pensava como um homem' por anos, mas seus colegas de trabalho continuavam o gendrando como mulher.” (Ver no Wikcionário)

Erin, Sundresses Mom @ErinInTheMorn

Acabei de finalizar 22 cartões de Valentine's Day para a creche do meu filho. Nós andamos pela Target para pegar alguns doces. É incrível apenas existir, sendo eu mesma, com meu filho e vivendo a minha vida sendo vista como eu realmente sou.

Até mesmo todos os seus amigos da creche dizem "sua mãe está aqui!" :)

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

Realmente é. Apenas... existindo. Sem máscara, sem filtros, sem equívocos. Totalmente realizada. É uma alegria. Pessoas cis tomam isso por garantido.

Exemplos:

  • Ser gendrade corretamente.
  • Ter tratade com o seu nome escolhido.
  • Vestir roupas que conferem com o seu gênero.
  • Ser e sentir mudanças em seu corpo.
  • Ver-se no espelho (remoção da despersonalização).
  • Socializar de uma forma que corresponde com as suas expectativas gendradas.
  • Cortar o cabelo de forma masculina/feminina/andrógena.
  • Remover (ou não) os pelos da perna.
  • Ser incluíde em algo que você, do contrário, não poderia por conta seu gênero atribuído ao nascimento (ex: bridal shower ou despedida de solteiro)
  • Sentir-se sexy ou ter sexo de forma que se alinha con seu gênero e sexualidade.

Mesmo apenas estar fora de casa como si mesme e ser viste como si mesme pode ser massivamente eufórico.

O que euforia NÃO é: uma alta sexual, um tesão, ou fetiche. Às vezes a euforia pode acionar uma resposta sexual, e há muitos fatores que contribuem para a causa disso (sentir-se bem sobre o seu corpo é uma estimulação de interesse, por exemplo), mas isso não é uma fonte de excitamento sexual. Pessoas trans não estão “obtendo prazer” em se apresentar ou agir como seus verdadeiros eus.

Dito isso, muitas pessoas que ainda não perceberam que são trans podem recorrer a fetiches e taras para expressar seus gêneros e/ou aliviar disforia. Elas podem manter algumas dessas taras durante a transição. Não há vergonha nisso: como elas encontram realização sexual é assunto delas. Entretanto, essas coisas estão ao lado de seus gêneros. O senso de gênero de uma pessoa trans persiste indefinidamente, ele não desaparece quando elas voltam para suas vidas diárias.

Disforia de Física de Gênero

Todos já ouviram a narrativa da pessoa “nascida no corpo errado”. A Disforia Física é um desconforto sobre o formato do corpo devido às características sexuais que ele apresenta. Então de quais características corpóreas estamos falando aqui?

Características Sexuais Primárias

O núcleo de características reprodutivas que desenvolvem durante a gravidez:

  • Gonadas
    • Testículos
    • Ovários
  • Genitália Externa
    • Pênis
    • Clitóris
    • Escroto
    • Lábia
    • Vulva
  • Órgãos Reprodutivos Internos
    • Próstata / Glândula de Skene
    • Útero

Características Sexuais Secundárias

Todas as características sexuais dimórficas que desenvolvem durante e após a puberdade como resultado de exposição à hormônios. Em geral, essas características são quase idênticas entre meninos e meninas pré-púberes.

  • Distribuição de Gordura
    • Cintura, Quadris, Formato das Nádegas
    • Coxas, Braços, Costas
    • Bochecha, Linha da Mandíbula
  • Massa Muscular
    • Pescoço, Ombros e Tronco
    • Braços e Pernas
    • Abdominal
  • Construção Esquelética
    • Variedade de Altura
    • Tamanho das Mãos e Pés
    • Largura dos Ombros
    • Largura da Caixa Torácica
    • Espessura e Densidade dos Membros
    • Testa, Sobrancelhas, Bochecha e Ossos da Mandíbula
    • Largura Pélvica
  • Tom e Textura da Pele
  • Tom e Ressonância da Voz
  • Desenvolvimento de Seios
  • Pelos Faciais
  • Pelos corporais (excluindo genitais e axilas)

Para sua Informação

Os genitais de uma pessoa trans em terapia hormonal não se comportam nem remotamente como os equivalentes de pessoas cis.

  • O Pênis Estrogênico amacia, ereções se tornam menos pronunciadas, a pele afina e começa a transpirar como a parede vaginal. O escroto amacia e muda de cor, com a rafe perianal se tornando mais distinta. Devido a cessação de ereções aleatórias, o tecido eréctil atrofiará se não for regularmente usado, causando o pênis inteiro a diminuir com o tempo. Vibração se torna mais efetiva para excitação.

  • A Vagina Androgênica seca e torna-se mais propensa a rasgamento (lubrificação pode ser um problema). A pele do clitóris engrossa, e as glandes clitorianas crescem em comprimento e largura devido ao início de ereções aleatórias. A lábia também engrossa e geralmente mais peluda. O início de terapia hormonal também resulta em extrema sensitividade do clitóris.

As características sexuais primárias só podem ser alteradas por intervenção cirúrgica. Algumas características sexuais primárias também são viagens de mão-única e requerem intervenção médica para desfazê-las, principalmente o crescimento de tecido mamário e engrossamento das cordas vocais. Estrogênio não faz a voz mais feminina e Testosterona não faz os peitos diminuírem (exceto pela perda gordura). Mudanças na estrutura esquelética (como a ampliação geral pela testosterona e alargamento das ancas pelo estrogênio) só podem ocorrer até a idade de 25, enquanto o corpo ainda está crescendo.

Algumas características secundárias podem ser cirurgicamente melhoradas (Aumento dos Peitos, contorno corporal, masculinização/feminização facial), e algumas não podem ser mudadas de jeito nenhum.

A Disforia Física se manifesta de várias formas distintas. Às vezes ela é sentida em uma espécie de efeito de membro fantasma, no qual uma pessoa pode sentir sensações de um pênis ou vagina que não está lá, uma dor num útero que não existe, ou uma sensação de falta de seios por peitos que não cresceram.

Ela também pode ser sentida como uma espécie de efeito fantasma reverso, no qual uma pessoa está persistentemente ciente de algo que não deveria estar ali. O cérebro está recebendo sinais de sensações que ele não espera como o peso dos peitos, ou a presença de testículo ou útero, e essa entrada toma prioridade porque ela não é esperada.

Ela pode ser sentida como um horror ou repulsa quando se olha ou toca os genitais externos, ativando explosões emocionais ou forte desejo de remover o órgão ofensor. Pessoas transgêneras AFABs (sigla inglesa para Assigned Female At Birth que significa Designada Mulher Ao Nascer) podem experimentar sensações de algo estar errado durante a menstruação, ou uma sensação de desconexão ou alienamento de seus ciclos menstruais.

Not Even a Chef @EloraEdwards

Quando os meus amigos no ensino médio discutiam qual seria a mulher ideal deles, eles sempre descreviam características físicas de uma pessoa que eles gostariam de namorar... enquanto eu explicava quem eu gostaria de ser.

Eu sempre achei que todos tinham um segredinho como o meu. Um pouco de vergonha do armário.

Ela pode se manifestar como uma compulsão de remover certas características corpóreas, tais como obsessivamente raspar pelos faciais. Ela também pode se manifestar como uma compulsão oposta, levando ao meticuloso cuidado dessas características para tentar controlá-las, ex: manter uma barba perfeita, persistentemente fazer manicure e pintura das unhas, ou fastar horas na academia tentando afiar a sua forma.

Características físicas indesejadas podem levar a pessoa experimentar inveja das pessoas que foram forçadas a remover tais características por doenças, tais como câncer de mama ou testicular. Pessoas AMAB (sigla inglesa para Assigned Male At Birth que significa Designado Homem Ao Nascer) com severa disforia genital tendem a desejar que alguma espécie de acidente bizarro que causasse a perda de seus pênis.

Às vezes, pode ser simplesmente uma sensação de estar incorreto, que você pode nem ter atribuído a gênero ou sexo. Pela maior parte da minha vida eu acreditava que a razão pela qual eu odiava o meu corpo era porque eu era gorda. Não foi até eu começar a transicionar que eu percebi que não detesto nem um pouco a minha gordura. Eu odiava ter gordura masculina. As curvas femininas que a terapia hormonal me trouxeram me fizeram sentir muito melhor com o meu próprio corpo.

To My Side My Noble Pandherjar @meimeimeixie

@MamaCoffeeCat Eu ouvi que porque eu não tinha disforia genital, eu não era "trans o suficiente" para transicionar. Eu subsequentemente vivi uma década de negação e auto-ódio.

Engraçadamente, após começar a transição, eu comecei a reconhecer um pouco da minha angústia pelo que ela era: disforia genital.

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

@meimeimeixie @MamaCoffeeCat Eu pre-TH: Eu não odeio o meu pênis nenhum pouco.

Eu 2,5 anos em TH: TIRA ESSA COISA DE MIM.

A disforia sentida sobre o corpo pode e irá mudar com o tempo, para melhor e para pior. Por exemplo, muitas mulheres trans entram na transição não sentindo nenhuma desconexão com seus genitais, mas depois descobrem que conforme as maiores fontes de disforia se derretem, elas se tornam cada vez menos confortáveis com seus genitais. Alternativamente, alguns podem assumir que elas absolutamente precisarão de cirurgia de feminização facial, mas dois anos após o início da transição elas percebem que na verdade elas estão okay com as suas aparências faciais.

É okay você perceber que você precisa de mais ou menos que quando você começara.

É okay se você não odiar nada sobre o seu corpo e apenas querer que você se parecesse mais feminina ou masculino.

É okay se você só odiar alguns aspectos do seu corpo, e não desejar mudar todas as suas características sexuais.

É okay se você não precisar de nenhuma transição médica. Sensações sobre o corpo não são a essência da transição.

Disforia física corpórea total não é um requisito para ser transgênero. AFABs não precisam odiar seus seios, AMABs não precisam odiar seus pênis. Cada pessoa trans tem uma experiência diferente. Todas são válidas.

Problemas de Imagem Corpórea Internalizada

O mundo é cheio de mensagens subconscientes sobre como as formas dos corpos de homens e mulheres devem ser. Nós somos bombardeados por propaganda e mídia criando uma visão normalizada do que é e não é bonito. Não seja muito gordo, não seja muito magro, não seja muito alto, não seja muito baixo, não tenha um queixo muito largo, não tem um nariz muito grande, use maquiagem não use muita maquiagem, não saia de casa sem um sutiã, mas não o deixe ser visto. É incessante a constante enxurrada de expectativas sobre aparência gendrada.

Todas absorvemos essas mensagens, e pessoas trans internalizam os fatores que importam ao gênero com o qual elas se alinham. Meninas trans crescem aplicando padrões femininos em si mesmas, meninos trans aplicam padrões masculinos em si mesmos e enbies (pessoas não-binárias) frequentemente internalizam vergonha acerca de androgenia. Isso é em cima da vergonha que eles recebem por não viverem de acordo com os padrões de seu gênero atribuído ao nascimento.

Qual é o resultado final disso? Kathryn disse isso melhor:

🏳️‍⚧️ Kathryn Gibes ✨ @TransSalamander

Se você tem a suposição de que você é um cara cis mas que sempre sonhou em ser uma menina e a única razão você não transicionou é porque você está com medo que você será uma menina "feia":

Isso é disforia. Você literalmente já é uma menina trans, querida.

🏳️‍⚧️ Kathryn Gibes ✨ @TransSalamander

Não se sinta muito mal por nunca ter percebido isso. Eu mesma acabei de ter esse momento de eureca.

Mas isso é literalmente disforia. Você sente desconforto ao ser lembrada da desconexão entre o quem você quer ser (quem você É) e o que você se parece.

Disforia Bioquímica

As características sexuais primárias do corpo começam a se desenvolver durante a oitava semana da gestação humana. Tipicamente pela décima-primeira semana é possível determinar os genitais do feto por ultrassonografia. O cérebro, porém, se forma entre a décima quarta e vigésima quarta semana. O atual entendimento prevalecente do desenvolvimento neurológico sugere que é durante essas dez semanas em que o cérebro se masculiniza ou feminiza dependendo da presença de testosterona na corrente sanguínea do feto (iniciada pelo gene SRY do cromossomo Y, ou introduzida por outras fontes). Esse processo trava o cérebro em um padrão de desejar estrógenos ou andrógenos.

Se o seu cérebro é conectado para um hormônio gonadal (ex: testosterona) e seu corpo produz outro hormônio (ex: estradiol), isso pode resultar em mal funcionamento bioquímico dentro da sua química cerebral. Isso produz uma espécie de névoa ou confusão cerebral, uma redução em capacidade mental, e um estado geral de ansiedade e desconforto. Essa é a fonte dos dois primeiros sintomas que geralmente aliviam com terapia hormonal: Despersonalização e Desrealização.

Despresonalização é um desapego com seu próprio corpo, uma inabilidade de acreditar que a pessoa que você vê no espelho é realmente você. Você se sente como se estivesse assistindo outrem dentro do seu corpo. Você pode encontrar-se não se importando com o que acontece com o seu corpo, falta de preocupação com mudanças de peso ou melhorar sua forma física porque você não tem propriedade desse veículo corpóreo que te transporta pela vida.

Zinnia Jones dá essas descrições de Despersonalização:

  • Uma sensação de desprendimento ou afastamento de seus próprios pensamentos, sentimentos ou corpo: “Eu sei que eu tenho esses sentimentos mas eu não os sinto”
  • Sensação de ser dividido em duas partes, com uma atravessando as moções de participar no mundo e outra quietamente observando: “Há esse corpo que anda por aí e outrem que apenas assiste”
  • Sensação de ter um eu “irreal” ou ausente: “Eu não tenho um eu”
  • Experienciar o mundo como distante, tipo um sonho, enevoado, incolor, artificial, como uma imagem sem profundidade, ou menos que real
  • Ser absorvido em si mesme e experienciar um compulsivo auto-escrutínio ou extrema ruminação
  • Ser um contínuo e coerente diálogo consigo mesme
  • Sensação de como se um véu ou parede de vidro te separa do mundo
  • Dormência ou torpor físico ou emocional, como se uma sensação de ter a cabeça preenchida por algodão
  • Carência de senso de agência – sentir-se plano, robótico, morto ou como um “zumbi”.
  • Inabilidade de imaginar coisas
  • Ser capaz de pensar claramente, mas sentir-se como se alguma qualidade essencial está faltando em seus pensamentos ou experiência do mundo
  • Uma sensação de desconexão da vida, impedindo-te de involvimento criativo e aberto com o mundo

Você pode por pouca atenção na sua aparência física, alcançando apenas as necessidades utilitárias básicas em roupas e higiene pessoal. Alternativamente, você pode hiperfocar na sua aparência, tentando faiscar alguma espécie de alegria, algum tipo de sensação de orgulho em seu próprio corpo, apenas para se encontrar com mais vazio.

Você pode não se importar com o estado do seu corpo, talvez nem temendo a morte, porque você tem tão pouco apego a sua vida.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você tem uma sensação subjacente de que você "não é como" a maioria das pessoas. Os seus amigos podem te entender, mas você desenha uma linha instintiva e subconsciente entre você e pessoas "normais". Quando você interage com pessoas "normais", você não sabe o que dizer ou como agir.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você acha difícil priorizar seus próprios sentimentos. Você está ciente das emoções que você *deveria* estar sentindo, mas elas são distantes e parecem falsas. Quando alguém está chateado, é muito mais real e urgente. Você acredita que isso é apenas a sua natureza estoica e protetora.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você frequentemente se sente em direção na vida. Quando te perguntavam sobre meras de carreira no Ensino Médio, você não se importava realmente sobre a sua resposta. Mesmo carreiras centradas em seus interesses pareciam meio intoleráveis. Você tem dificuldade em imaginar um futuro para si mesmo onde você está feliz ou realizado.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você só toma passos para melhorar a sua vida quando forças externas te *obrigam*. Você preferiria se excluir e auto-minimizar e focar em seus hobbies escapistas. Você simplesmente não está motivado para ater boas coisas para si próprio. (Você se diz que isso é aceitação zen, uma liberdade dos desejos.)

Desrealização é o desapego com o mundo ao seu redor, uma sensação mental de que tudo que você percebe é falso.

  • Seus arredores parecem alienígenas ou pouco familiar, mesmo se você sempre esteve aí, como se alguém tivesse trocado a sua casa por uma réplica de palco.
  • Mover pelo mundo te faz sentir como se andasse numa esteira ergonômica, com os corpos movendo ao seu redor ao invés de você através deles.
  • Sentir-se emocionalmente desconectado das pessoas que você se importa, como se vocês fossem separados por uma parede de vidro, ou como se eles fossem apenas atores fingindo ser as pessoas que alegam ser.
  • Arredores que parecem distorcidos, embaçados, incolores, bidimensionais ou artificiais, ou uma intensificada ciência e claridade de seus arredores. Folhas nas árvores parecem como e elas tivessem arestas extra afiadas, por exemplo.
  • Distorções na percepção de tempo, tais como recentes eventos parecerem como o passado distante.
  • Distorções de distância e tamanho e formato de objetos.
  • Sentir-se como um observador passivo nos eventos da sua vida.

Se você se encontrou fortemente se identificando com A Matrix, ou o Truman Show, você pode estar experienciando desrealização. Isso também pode se manifestar como uma sensação de sobrenatural, como se você não pertencesse a essa sociedade. Você está apenas andando por aí esperando que seus superpoderes apareça, ou que uma coruja lhe entregue sua carta de Hogwarts. Como uma adolescente, eu era obcecada por um episódio de The Outer Limits em que um menino descobre uma nave espacial sob a sua casa e aprende que seus pais não são realmente humanos.

O Transtorno da Despersonalização e Desrealização às vezes vem com uma atrofia emocional. Você é capaz de rir e encontrar humor, mas raramente alegria genuína. Momentos de tristeza ou pesar te fazem ficar apenas dormente, dissociado pelo evento que o causou. Isso também pode ir na direção oposta, em que a pessoa está sob tanta ansiedade que a resposta emocional é extremamente desproporcional ao catalisador, resultando em severo choro ou explosões violentas de eventos aparentemente pequenos.

É importante notar que esse Transtorno não é exclusivo da Disforia de Gênero. Essa condição é comórbida a vários outros problemas de saúde mental, incluindo depressão crônica, desordem obsessiva compulsiva, e desordem de personalidade borderline (limítrofe). O Transtorno da Despersonalização e Desrealização n"ao deve ser tomado, isoladamente, como um sinal de de Disforia de Gênero. Ele é apenas um grande alarme de que algo está bem errado. É geralmente fácil de notá-lo em outros uma vez que você saiba como percebê-lo. Pessoas com esse Transtorno tendem a ter um olhar de um quilômetro de comprimento conforme se deslocam pelo mundo; olhos tão sombrios e mortos que eles parecem como uma casca. Um dos comentários mais comuns sobre linhas de tempo de transição é como os olhos ganham tanto brilho.

O Fluxo e Refluxo

A intensidade da disforia física e bioquímica é altamente influenciada por outros fatores no corpo. Por ser uma função de balanço endócrino, ela é também manipulada por esses balanços. Isso significa que ela pode subir e cair de dia para dia. Por exemplo:

  • Se seu açúcar no sangue está fora de controle ou você tem algum problema de tireoide, isso pode aumentar a sua disforia.
  • Se você está tendo retirada de dopamina por cessamento de estimulantes, a sua disforia pode piorar.
  • Se você começa a usar um antidepressivo SSRI e começa a funcionar com mais serotonina, a sua disforia pode diminuir.
  • AMABs transfemininas com testículos experienciam ondas de alta testosterona em relação a atração e desejo, o que pode torná-las mais disfóricas.
  • AFABs transmasculinas com ovários não suprimidos experienciam aumentos e quedas em estrógeno e progesterona ao longo do ciclo menstrual, fazendo suas disforias intensificarem e atenuarem de acordo com o dia do ciclo na qual estão.

Há dezenas de sistemas no seu corpo que operam em sinfonia e todos eles flutuam de dia para dia, manipulando seu estado mental geral. Essa disforia geral pode amplificar o efeito das outras formas de disforia. Um dia você pode dar de ombros para a misgenerização como se não fosse nada e no dia seguinte isso dói como faca no coração a cada vez. Um dia você se vê no espelho e no próximo você está encarando o você mais velho.

Algumas pessoas experienciam isso de uma forma gênero-fluida, com alguns dias tendendo mais para homem e alguns mais para mulher e em outros dias não sentindo nenhum gênero ou ambos. Outros apenas sentem isso como um rio sazonal; às vezes ele enche porque chove na nascente, às vezes ele esvazia por conta da seca.

Tudo isso é válido, e só porque você se sente bem disfórique num dia e não no seguinte não significa que você não é realmente trans.

Isso Acontece de Mão Dupla

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

Vale notar que no evento de uma pessoa cis confusa tentar transição médica sem ser barrada pelo número absurdo de barreiras e profissionais médicos de verdade cuja assinatura geralmente é necessária, aqui é o que aconteceria: Ile toma algumas pílulas, ou uma injeção

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

que então então procede a lhe fazer sentir absolutamente horrível, como jorrar açúcar no tanque de combustível de seu cérebro. Nesse ponto, assume-se que ile imediatamente pararia de tomar os suplementos hormonais que ile não precisava de verdade e volta a uma vida normal sem consequência duradoura

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

Caso uma pessoa cis confusa e BEM teimosa ignore essa sensação se ser um lixo total e se continue tomando TH que ile não devia por vários meses, ile pode também experienciar alguma acne e/ou a pele melhorando e parecendo ótima, e uma mulher pode começar a crescer barba

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

um homem em uma posição similar pode lidar com ginecomastia e depois de tipo, um ano ou dois, mais ou menos, de novo, de se sentir um completo lixo por tomar suplementos desnecessários de estradiol. Qualquer um, em um prazo similar, pode ver seus genitais agindo mais como os do tipo errado, que

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

, de novo, eu imagino que é onde ele pensaria "ei!, isso não é certo" e apenas pararia de tomar o medicamento que estão usando erroneamente. Onde, de novo, as coisas simplesmente voltariam ao normal.

Oh, e todo isso é eu falando sobre TH. Usualmente o que preconceituosos estão fazendo é falar sobre

Secret Gamer Girl @SecretGamerGrrl

bloqueadores de puberdade como se eles fossem TH. Se alguma criança cis confusa toma bloqueadores de puberdade o grande total do que aconteceria é.. não começar a puberdade até ile perceber que estava a tomando por nenhuma razão em particular e parar. Nenhum efeito colateral de qualquer tipo para se preocupar

Algumas vezes você ouvirá críticos sugerindo que tomar terapia hormonal sempre melhora a saúde mental. Eu mesma ouvi isso quando eu saí do armário para a minha mãe. “Estrógeno deixa todo mundo mais feliz.” Isso é totalmente falso. Quando pessoas cis são colocadas em terapia hormonal do gênero oposto, isso sempre resulta em disforia. Essa é uma das razões pelas quais Espirolactona é raramente prescrita para homens, pois o fator anti-androgênio causa instabilidade mental. Cinco a dez porcento das mulheres cis sofrem de Síndrome do Ovário Policístico (SOP), uma condição que causa os ovários a produzirem testosterona ao invés de estrogênio. Pergunte a qualquer uma delas como a saúde mental deles tem sido, e elas te preencherão o ouvido.

Uma demonstração bem potente disso é o trágico caso de David Reimer. Aos sete meses de idade, David e seu irmão gêmeo receberam circuncisão para tratar um caso sério de fimose (uma condição da pele do prepúcio). A do David deu terrivelmente errado, e o seu pênis foi destruído. Foi tomada uma decisão de fazer vaginoplastia nele e criá-lo como uma menina, incluindo terapia de estrógeno na puberdade. Pelos 13 anos de idade, ele estava em depressão suicida e sofrendo muito, pois nenhuma quantidade de instrução e encorajamento pode fazer um menino apreciar ser uma menina. Quando seus pais informaram o que acontecera, ele retornou a uma apresentação masculina, mudou para terapia de testosterona, e ao longo de sua adolescência teve múltiplas operações para transicionar de volta ao sexo masculino.

Pessoas sabem quando elas estão vivendo no gênero errado.

O psicólogo John Money, que acompanhou o caso de David, foi largamente responsável pelas decisões tomadas na criação de David. Money, procurando fazer um nome para si próprio, relatou o caso de David de forma massivamente enganosa, chamando o caso de um completo sucesso em seus relatórios. O resultado disso ecoa até hoje, pois os relatos de Money foram usados como exemplos do porque fazer cirurgias em bebês intersexo era um curso apropriado de ação. Cinquenta anos mais tarde, ainda há médicos que acreditam que eles podem simplesmente mudar os genitais de uma criança e criá-la nesse gênero e que isso vai funcionar.

Essa é a tragédia da comunidade intersexo. Aproximadamente um a cada sessenta nascimentos resulta em alguma condição intersexo (apesar de nem todas elas serem relacionadas a genitais). Geralmente procedimentos “corretivos” feitos em crianças intersexo resultam em perda de função e/ou sensação. Muito frequentemente, médicos optavam por forçar a designação de mulher pois era mais fácil fazer uma vulva do que um pênis.

Disforia Social

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Quando você interage com homens bem masculinos, você está nervoso. Você realmente não sabe ou não quer como levar uma conversa com eles. Você sente uma expectativa, vinda deles, de ser algo que você não é. Você quietamente os julga por serem muito "bro" e "básicos".

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Ser vulnerável ao redor de homens estranhos é aterrorizante. Você se sente ansioso quando você tem que usar o banheiro masculino. Trocar de roupa em vestiário é inimaginável. Você não sente propriedade desses espaços. Você é bem preocupado com homens estranhos te observando, ou [observando] o seu corpo.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você é inábil ao toque social. Você pode desejar toque, como a maioria das pessoas, mas você sente que você é quase completamente incapaz de recebê-lo calorosamente. Quando você dá um abraço, algo sobre o seu torso sente como se fosse *ofensivo* aos outros. (O que quer que seja, eles não notam.)

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você não consegue falar sobre sexo, ou atração, ou corpos de pessoas pelas quais você não deveria ter atração. Mesmo quando seu comentário é solicitado, tudo que você poderia dizer parece indesejado e inapropriado, mesmo se isso seria okay vindo de outra pessoa. Você congela.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você luta mesmo para expressar inocentes elogios físicos aos outros como "Lindo!" Você está hiper-vigilante que virtualmente qualquer coisa pode soar como atenção sexual indesejada [quando o comentário] vem de você. Você sente que a sua atenção é única e universalmente indesejada.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Quando uma amiga expressa desaprovação, você se sente devastado. Você se esforça para obter a aprovação delas de volta. Você está preocupado em ser visto como o "casa legal" dissimuladamente sorridente todos os quais você detesta. Você simplesmente valoriza mais a opinião das suas amigas por razões que você não consegue explicar.

Toda a Disforia de Gênero social orbita um conceito central: qual gênero as pessoas acreditam que eu sou? A disforia social é sobre como o mundo externo te percebe, como os outros te falam, e como se espera que você fale com eles. A aplicação disso e experiência da disforia social difere entre antes e depois da pessoa trans se conscientizar sobre seu próprio gênero.

Enquanto ainda se está no escuro, o único despertar/sinal é que algo parece errado na forma como você interage com as suas interações com outras pessoas. Pessoas do seu gênero designado ao nascimento parecem interagir contigo de formas que não lhe parecem naturais. Seus comportamentos e maneirismos geram uma sensação de estranheza e surpresa, enquanto as interações com indivíduos de seu verdadeiro gênero parecem mais fáceis. Você se identifica/relaciona com pessoas mais próximas de seu verdadeiro eu.

Por exemplo, pessoas trans AMAB podem sentir muito desconforto em grupos de homens. Eles podem parecer fora de lugar e elas tem dificuldade para se encaixar entre seus pares homens. Interações sociais masculinas não vem naturalmente para elas, e tentar emular o comportamento de seus amigos homens gera estranheza. Elas podem se sentir mais atraídas a amizades com mulheres, mas ficam frustradas com as dinâmicas sociais e heteroafetivas que entram em jogo e as previnem de formar relacionamentos platônicos. Isso é se as mulheres estiverem abertas a formar essas amizades. As AMABs podem se encontrar profundamente machucadas quando mulheres fogem delas por princípio.

A sensação de erro intensifica conforme a pessoa se torna mais e mais ciente de sua própria incongruência e, ao perceber quem realmente são, essa sensação de erro assume uma nova forma. Para pessoas transgêneras binárias, isso frequentemente pode ser sobre a intensa necessidade de ser vista como seu verdadeiro gênero, seja ele homem ou mulher. Algumas pessoas transgêneras não-binárias experienciam isso mais como uma euforia ao serem vistas como nem homem nem mulher e portanto serem referidas apenas de formas não generizadas, ou ao serem lidas como diferentes gêneros por diferentes pessoas na mesma circunstância. Algumas experienciam euforia quando as outras pessoas são incapazes de ler seu verdadeiro gênero e tornam-se confusas.

Disforia social é onde pronomes e misgenerização entram em jogo; ser tratada por um pronome generizado como ela, ele, dele, dela que não é o pronome que alinha com o nosso gênero é extremamente desconfortante. Concedido, isso é verdade para todas as pessoas, incluindo as cisgêneras, mas onde uma pessoa cis pode se sentir insultada por ser misgenerizada, uma pessoa trans se sentirá machucada. É como unhas numa lousa, ou palha de aço sobre a pele. Ouvir o pronome errado é um lembrete de que a pessoa com quem você está falando não te reconhece como o gênero que você realmente é.

Pronomes de gênero neutro também podem causar ansiedade em pessoas transgêneras binárias se usados de maneira que mostra claramente que o interlocutor está evitando o pronome que corresponde a pessoa trans. Isso é frequentemente uma indicação de que a pessoa foi lida como trans, e o interlocutor lhe tratando não sabe sabe quais pronomes ela usa. Perguntar por pronomes pode resolver a situação imediatamente, mas o paradoxo é que mesmo nesse cenário, ser perguntada sobre seus pronomes pode induzir disforia por ter sido lida como trans. É tipo um ardil-22.

O pronome inglês they usado no singular também pode ser usado maliciosamente quando um indivíduo transfóbico se recusa a usar o pronome correto, mas sabe que ele se encrencará por usar os pronomes errados. Tom e intenção importam muito.

Nota de tradução: o que foi dito no parágrafo anterior provavelmente também se aplica ao pronome neutro elu e suas variações, mas isso não está no texto original.

O mesmo se aplica a nomes. Ser chamado pelo nome de nascimento (nome morto) ao invés do novo nome pode gerar sensação de invalidez quando feito ignorantemente, e sensação de desdém quando feito intencionalmente.

Isso pode também se manifestar como alegria ou embaraçamento ao ser percebido como seu verdadeiro gênero enquanto ainda vivendo como seu gênero de nascimento.

  • Uma pessoa AMAB sendo tratada, com intenção de insulto, como menina, mas lhe causando rubor nas bochechas ao invés de raiva.
  • Uma pessoa AFAB sendo chamada de senhor e sentindo-se melhor por isso.
Dr. Emmy Zje @Emmy_Zje

A ironia em “mulheres trans imitam esteriótipos de gênero” é que a única vez em que EU IMITEI esteriótipos de gênero foi quando eu era forçada a interagir com homens. E eu fiz isso por uma sensação de sobrevivência e anseio de tentar me encaixar.

Eu não transicionei em esteriótipos…eu transicionei para fora deles.

O desconforto gerado por disforia social pode pressionar uma pessoa trans a agir e apresentar-se de forma exagerada para tentar convencer o resto do mundo que ela realmente é quem ela diz ser. Pessoas transfemininas podem se concentrar em maquiagem e roupas femininas, e tornar-se mais quiera para parecer mais recatada, e falando em voz mais aguda, Pessoas transmasculinas podem apoiar-se em estilos de roupas masculinas, andar mais alto, suprimir apresentações de emoções, começar a falar mais alto e grave.

Disforia Física vs Social

Algumas características físicas que podem causar disforia o tempo inteiro para algumas pessoas podem manifestar-se apenas como disforia social para outros. Por exemplo, algumas pessoas podem apenas ser bem autoconscientes sobre sua aparência física porque ela lhes causa serem misgenerizadas ou lidas como trans e sentem-se completamente confortáveis quando interagindo em ambientes onde elas são sempre listas e tratadas como seu verdadeiro gênero.

Eu, mim mesma, não tenho disforia física quanto a minha voz. Eu na verdade gosto bastante de cantar em meu barítono natural e quando eu estou em casa com apenas a minha família eu deixo a minha voz relaxar. Quando estou em público, porém, ser capaz de falar em uma voz feminina tem um papel fundamental para eu ser vista como mulher por estranhos, então eu coloco muito esforço em treiná-la. Minha voz feminina se ativa no instante que atendo o telefone ou saio da casa, nem é uma coisa consciente.

“Uma de nós!”

Um fenômeno surpreendente e bem curioso é que pessoas transgêneras armariadas tem uma tendência de encontrar umas as outras sem nem perceber o que fizeram. É um padrão engraçado que eu tenho ouvido inúmeras vezes: uma pessoa do grupo de amigos se percebe trans, inicia a transição, e isso inspira outros membros do grupo a também perceberem que são trans e a também saírem do armário.

kiva @persenche

@Whorrorer eu posso conhecer uma mulher cis por um ano e não sentir que sou tão próxima dela.

eu posso conhecer uma mulher trans por três horas e sentir que eu a conheci pela minha vida inteira.

Pessoas trans subconscientemente tendem a gravitar para amizades entre si. Tando por uma necessidade de pares que pensam e agem similarmente sem julgamentos, e por uma laços de ostracização social. Isso, claramente, não é exclusivo de pessoas trans e ocorre com todos os tipos de pessoas queer, mas a forma que isso tem efeitos de espalhamento é bem poderosa. É bem similar com a forma que um grupo inteiro de amigos se casa e tem filhos em resposta a um dos membros do grupo se casando e tendo filhos.

Pessoas trans geralmente também continuam a auto-selecionar seus grupos pós-transição, como se simplesmente entendemos uns aos outros melhor que pessoas cis conseguem. Há uma energia que ocorre quando um grupo de pessoas trans se encontra em um lugar, a sala fica carregada de camaradagem e comiseração. Nós temos tanto em comum em nossas histórias, tantas experiências compartilhadas, que, salvo conflitos de personalidade, nós instantaneamente nos juntamos.

Disforia Societal

Papéis de gênero existem, e por mais que tentemos contrariá-los e apontar o sexismo que neles existe, sempre haverá expectativas colocadas sobre as pessoas por conta de seu gênero. A mais forte dessas é em papéis maritais e parentais. Termos como “marido”, “esposa”, “mãe”, e “pai” vem cheios de bagagem atrelada a eles e o papel errado, ou ainda qualquer papel, pode gerar sensações de restrição tão excessiva quando uma camisa-de-força forrada de chumbo. Você recebe um livro inteiro de comportamentos e ações, gostos e desgostos, que se espera que você cumpra e, se você falhar em cumprir tais requerimentos, você é visto como um mal conjugue ou mal genitor.

Um pai AFAB que dá à luz pode experienciar severa disforia sobre ser chamado de mãe. A vasta maioria dos recursos sobre dar à luz são extremamente genderizados como de mulher. Tanto que o próprio processo de concepção, gravidez e dar à luz é excepcionalmente carregado com expectativas de gênero. E se você está grávido, será rotulado como mãe independentemente de como você se sente sobre o seu papel, e com isso vem muitas presunções. Presunções sobre dar cuidados, amamentar, e criar crianças.

Indivíduas transfemininas que passam como cisgêneras também experienciam isso. Se você está carregando um bebê ou cuidando de uma criança, você é rotulada de mãe (exceto se a criança for branca e você não, o que te rebaixada à babá, mas isso é outro tópico). Isso pode ser validante, porque isso é um sinal de que você é vista como mulher, mas também pode ser extremamente invalidante quando mulheres cis começam a falar sobre as experiências reprodutivas que elas acham serem compartilhadas.

Some unexpected ways that Societal Dysphoria can appear are in the need to conform to the social standards of your true gender. For example, many trans women have stories about feeling the need to cover up their chest pre-transition out of an intrinsic sense of modesty. A discomfort at swimming topless is a common trait, even when there is no understanding of one’s true self; something just knows.

Algumas formas inesperadas que Disforia Societal pode aparecer são na necessidade de conformar com os padrões sociais de seu verdadeiro gênero. Por exemplo, muitas mulheres trans tem estórias de sentirem necessidade de cobrir seus seios pré-transição por um senso intrínseco de modéstia. Um desconforto em nadar topless é uma característica comum, mesmo quando não entendimento de seu verdadeiro eu; alguma coisa simplesmente sabe.

Vergonha

Falha em cumprir com esses papéis pode manifestar intensamente como vergonha e humilhação. Crescer armariado e batalhando para encaixar nos tropos comuns de gênero frequentemente resulta em sinais de desapontamento pelos pais e pares que esperavam algo distinto. Um pai pode estar desapontado que seu filho AMAB não está disposto a engajar em esportes ou outras atividades masculinas. Pares mulheres podem demonstrar desaprovação em uma adolescente AFAB escolher passar o seu tempo em um circulo social de homens. Meninos adolescentes podem ostracizar uma pessoa trans AMAB que não compartilha o mesmo senso de humor.

Esses tipos de situações podem levar a bullying (intimidação) e abuso, empurrando a pessoa trans a sentir-se isolada, sozinha e fora de lugar. Esse senso de divisão então cria sentimentos de vergonha por falhar em ser a pessoa que todos esperam que ela seja. Isso então se manifesta como depressão em cima da disforia, agravando a sua dor.

Dr. Emmy Zje @Emmy_Zje

Culpa é um subproduto de culpa, culpa é um subproduto de transfobia, e transfobia é um subproduto das mentiras baseadas em medo.

Uma vez que você percebe isso, você pode começar a ver “trans” pelo que ela é ... uma bela manifestação da natureza. Uma dádiva a ser apreciada, não uma maldição a ser escondida.

A vergonha se torna especialmente intensa no momento de revelar-se ser trans. Amigos e familiares transfóbicos tendo reações negativas, às vezes até violentas, para uma pessoa trans saindo do armário converte essa vergonha em extrema culpa e desonra. Um adulto trans em um casamento pode sentir um tremendo remorso em revirar a vida de seu conjugue por revelar-se trans. Ele pode esperar repreendimento por seus vizinhos e pares, e temer como isso afetará seu conjugue ou filhos.

Isso também é uma forma de disforia de gênero, pois essas influências não seriam sentidas caso a pessoa fosse cisgênera.

A outra forma que vergonha entra em jogo é na transfobia sistêmica presente na nossa sociedade. Adultos trans de hoje cresceram vendo mídia transfóbica em suas infâncias. A obsessão transsexual do fim dos anos 80 e começo dos 90 foi horrivelmente traumática para crianças trans da época. Vendo todos os adultos e pares aos seus redores rindo e zombando e sentindo nojo por pessoas com as quais elas não apenas se identificavam, mas fortemente empatizavam e admiravam. Essa vergonha fica conosco por nossas inteiras vidas; isso é a razão fundamental pela qual tantas pessoas trans não saíram do armário antes dos seus 30 anos de idade, pois só quando chegaram na meia-idade elas estavam capazes de superar essa vergonha.

Vergonha também tende a acumular até que ela transborda em ação radical. Um aspecto bem comum entre as estórias de pessoas trans são ciclos em que elas construíam suas apresentações, lutando contra seus sentimentos menos e menos, até, de repente, elas se sentem derrotadas por vergonha e expurgam tudo, jurando nunca mais seguir essas sensações. Esse padrão repete de novo e de novo.

Dating and Romantic Relationships

Callidora @Adoratrix

Eu entendo o raciocínio. Meninas trans crescem falsamente acreditando que elas são meninos, e são presumidas/esperadas/crescidas para experimentar e expressar atração heteronormativa à mulheres. Se você é uma trans lésbica, você transiciona mas você ainda gosta de mulheres. Então é o mesmo, certo? Não

Callidora @Adoratrix

Vamos falar dos detalhes. Para começar, vale notar que a maior parte das trans lésbicas não experiencia atração heteronormativa à mulheres da mesma forma que homens cishéteros. Disforia e sensações de confusão de gênero bagunçam muito com isso

Callidora @Adoratrix

Antes de eu transicionar, o mero pensamento de fazer qualquer coisa sexual ou romântica com uma menina me dava náusea, porque fazer isso me fazia sentir que eu estava adotando um papel masculino - o papel de um namorado, do amante homem - e isso engrenava a minha latente disforia em overdrive

Callidora @Adoratrix

Quando eu comecei a transicionar, minha família e amigos assumiram que eu seria somente ou primariamente interessada em homens. Toda mensagem cultural mainstream que eu absorvi sobre mulheres (incluindo mulheres trans) me disseram que eu precisava gostar de homens

Callidora @Adoratrix

Muito dos sistemas de saúde trans operam em um sistema muito muito rudimentário onde um médico cis te pergunta um monte de coisas como 'com quais brinquedos você brincava quando criança?' para ver se você se encaixava bem o bastante com o que uma mulher é "esperada" ser. E "espera-se" que mulheres gostem de homens

Callidora @Adoratrix

Então, há um monte de pressões internas e externas enfrentadas por trans lésbicas para negar seu próprio lesbianismo e experienciar homens. Isso não é nada que qualquer homem hétero experiencia, mas é muito como o que lésbicas cis experienciam!

Callidora @Adoratrix

Uma última coisa é, a sensação de ser uma trans lésbica experienciando atração, sexo e romance a outras mulheres. Isso não é como a sensação da atração cishétera. Ela não é sobrecarregada por quaisquer daquelas expectativas estranhas e rudimentárias. Eu não reconheço nenhuma delas na minha vida

Callidora @Adoratrix

Quando eu leio experiências cishéteras sobre sua sexualidade, eu não sinto nada exceto alienação. Quando eu leio experiências lésbicas, elas ressoam profundamente comigo e eu reconheço essas coisas em como eu experiencio minha sexualidade com as pessoas eu amo e pelas quais sinto atração

Disforia societal entra fortemente em jogo em rituais de cortejo. Ser forçado a ser o namorado ou namorada quando você não é nem menino nem menina é extremamente desorientante e frequentemente gera sensação de grande injustiça. AMABs podem encontrar-se desejando que elus recebessem os mimos, e AFABs podem sentirem-se bem desconfortáveis com a quantidade de atenção que recebem de prospectivos parceiros (além do desconforto que mulheres em geral experienciam, pois isso inclui atenção genuína e não apenas a indesejada). As expectativas colocadas sobre elus por seus parceiros para cumprir esses papéis de cortejo podem sentir como um grande ônus a ser suportado. Por contraste, namorar como seu verdadeiro gênero torna-se eufórico. Compre flores a uma moça trans e veja como ela desmaia de felicidade.

Uma pessoa trans armariada pode sentir tanta pressão em conformar-se à heterossexualidade que ela suprime seus próprios instintos com respeito a relacionamentos e toma um papel performativo. Muitas mulheres trans tentaram fazer o papel de marido heterossexual a uma esposa, apenas para perceberem com a transição que elas prefeririam muito o papel de esposa. Elas podem nem serem atraídas por mulheres.

Além do desconforto, muitas pessoas trans percebem que a dinâmica dos relacionamentos que elas experienciaram após a transição que elas nunca realmente namoraram como uma pessoa cis de seu gênero designado ao nascer, mas sim sempre tiveram relacionamentos românticos que encaixam sua verdadeira orientação. Relacionamentos de homens para homens e mulheres para mulheres tem padrões completamente diferentes daqueles de relacionamentos heterossexuais; diferentes rituais de cortejo, diferentes percepções, diferentes estilos de comunicação. Homens se relacionam diferentemente com homens em comparação a com mulheres, e mulheres se relacionam diferentemente com mulheres em comparação a com homens, mesmo quando não sabem que são homem ou mulher.

Por exemplo, eu mesma percebi, após sair do armário a minha esposa que todas as nossas tentativas anteriores de namoro foram absolutamente sáficas em natureza. Minha primeira prioridade sempre foi ser bons amigos com elas. Encontros nunca eram rotulados de encontros porque nós queríamos simplesmente sentar e conversar, passando o tempo juntos. Consequentemente, vários dos meus relacionamentos simplesmente acabaram porque eu temia demais que fazer o primeiro movimento poderia destruir a amizade. Eu gastaria metade do meu dia pensando sobre elas e querendo estar perto delas, não por luxúria sexual, mas por afeto pessoal. Minha primeira namorada me falou diretamente no nosso primeiro encontro que eu não era como qualquer homem que ela já namorara porque eu gostava de conversar ao invés de apenas tentar tornar as coisas físicas. Ela rompeu comigo dois meses mais tarde porque eu não era tão assertivo quanto ela queria de um parceiro.

Essas dinâmicas ficam ainda mais complicadas para pessoas não-binárias, algumas das quais podem no máximo descrever o seu estilo de namoro como queer. Algumas tem dificuldade em identificar qual papel elas querem interpretar em um relacionamento. Outras podem tomar um papel específico que é tipicamente visto como binariamente genderizado, mesmo se elas não são menino nem menina. Algumas querem interpretar um papel visto na sociedade como neutro ou consistente de aspectos de ambos os papéis de gêneros binários.# Disforia Sexual

Intimamente relacionada à Disforia Societal é a disforia centrada ao redor da sexualidade, relacionamentos sexuais, e o ato de ter sexo. Papéis heteronormativos de gênero vem carregados com as expectativas que AMABs serão ativas e AFABs serão passivas. Essas dinâmicas são reforçadas por nossa mídia popular, por masculinidade tóxica, e especialmente por nossa pornografia, mesmo pornografia transgênera (a maior parte da pornografia trans/cis envolve a mulher trans sendo ativa). Desvios desses papéis frequentemente resultam em vergonha, tanto de parceires quanto pares.

Claro, isso não é absoluto, e muitos casais cis encontram formas de sair desses moldes, encontrando novas dinâmicas em seus relacionamentos, ou engajando em taras (kinks) para satisfazer seus desejos. Alguns casais descobrem que não são nenhum um pouco sexualmente compatíveis e buscam outros parceires. Entretanto, há muitas muitas pressões externas desencorajando esse tipo de auto-consciência e descoberta, e quebrar essas demandas pode ser extremamente difícil, até traumático. Isso é particularmente verdadeiro quando há um fundo (background) de conservadorismo ou virtuismo religioso.

Relacionamentos gays cisgêneros fogem disso por necessidade, abrindo as portas para indivíduos explorarem quais papéis os deixa mais contentes. Alguns casais gay estabelecem uma dinâmica de dominação e submissão, e eles entram no relacionamento com isso já entendido. Outros resolvem ficar alternando qual parceire é dominante. Ainda assim, relacionamentos gay ainda podem cair nesses tipos de expectativas de gênero atribuindo os papéis de homem e mulher para butch e femme respectivamente para as lésbicas ou para urso e twink respectivamente para homens gays.

O que isso tudo significa? Pessoas trans pré-transição que entram em um relacionamento aparentemente heterossexual às vezes se encontram perdendo interesse no relacionamento sexual, pois atos penetrativos não geram o satisfação que esperavam. Em casos extremos, elas podem sentir que algo está completamente errado e engatilhar pânico. Essas sensações podem ser prazerosas, mas a experiência é fora de lugar e o ato em si gera a sensação de ser algo forçado.

🏳️‍⚧️ Kathryn Gibes ✨ @TransSalamander

Alguma outra menina trans chegou ao ponto pré-transição onde elas tinham basicamente que dissociar para fazer o papel de ativo no sexo ou era só eu lol

Isso pode gerar uma sensação menos entusiástica ou até desinteressada em sexo, já que metade do que faz o desejo sexual é o contexto mental da situação. Muitas pessoas trans nunca experienciam sexo até à idade adulta, funcionalmente operando como sexo-aversos devido ao quão severamente suas disforias tem desligado seu desejo sexual. Elas podem ainda fazer sexo por bem de suas parceires, mas não recebem tanto prazer quanto poderiam, e ainda podem acabar desconectando da realidade ao seu redor para completar a tarefa.

Essa disforia pode ser tão significativa que elas se encontram tomando uma identidade sexual com a qual elas não se conectam. Não é inédito uma pessoa trans perceber, após sair do armário, que ela nunca sentiu uma conexão a orientação sexual com a qual elas se identificaram previamente, mas na verdade a usavam como forma de se sentirem menos disfóricas em suas vidas sexuais.

Algumas mulheres trans, por exemplo, se identificavam como homens gay antes da transição por desejo de ter um parceiro que as trata como mulher durante o sexo, mas se descobrem serem na verdade lésbicas uma vez que essa demanda é levantada. Outras podem viver como homens gay, mas descobrem que esse papel não as satisfaz porque elas sabem que seus parceiros as veem como homem.

O Coercivo Olhar Masculino

Nota da autora: Esse tipo específico de disforia sexual é difícil de explicar em termos generalistas, então eu vou fazer uma exceção aqui e escrever sobre isso a partir da minha perspectiva como uma mulher binária transgênera. Portanto, isso pode não ser completamente relacionável a todas as pessoas trans. Minhas desculpas.

"Swole Mom" - How Baby, by Lindsay Ishihiro

Existe um ditado bem conhecido em círculos sáficos: “Eu quero ficar com ela ou ser ela?”

Pode ser difícil separar a inveja da atração sexual, especialmente quando você é uma adolescente trans armariada. Nossa sociedade inteira é construída sobre heterossexualidade; ela simplesmente o padrão (default) cultural, ao ponto de que mesmo crianças pré-púberes são imundadas de mensagens sobre atração de homens para mulheres. Consequentemente, interesse em aspectos das vidas do sexo “oposto” é quase sempre imediatamente percebido sendo atração sexual.

Qual é o resultado disso? Geralmente… vergonha. Jovens (crianças e adolescentes) trans geralmente internalizam suas visões de seus pares baseando-se em seu verdadeiro gênero, e não se objetifica seus iguais. Logo o jovem é motivado a esconder esses interesses por desejo de não ser visto praticando esse tipo de objetificação sexual. Isso é ainda mais complicado quando o jovem foi criado em um ambiente com códigos morais muito estritos, por exemplo em uma família religiosa conservadora.

Crescendo como um adolescente transgênero armariado em um casa cristã evangélica, eu sei que se fosse pega olhando para mulheres no que era visto como uma maneira sexual, eu seria punida. Eu sabia que se eu fosse pega mexendo em roupas e acessórios de mulher, haveria um monte de questões bem incomodas que não estava preparada para responder. Isso foi um problema bem sério para mim, como alguém com forte fascínio pelo vestuário feminino, particularmente lingerie.

um clipe dos Simpsons no qual Moe Szyslak é colocado em um detector de mentiras, e ao fim do teste ele confessa que ele passará a noite cobiçando as mulheres na seção de roupa íntima do catálogo da Sears (loja americana de departamentos similar ao Wallmart mas com grande seção de roupas). Todo o cerne da cena, e a fonte da comédia, é a vergonha que é jogada sobre o Moe por praticar esse ato desesperado de objetificação. Eu cresci sabendo que isso é como eu seria percebida pelo meu interesse em roupas de mulher.

Por vergonha e medo, eu fiz tudo que pude para esconder essa paixão, porque eu simplesmente não conseguia suportar que alguém me visse como os meninos adolescentes que masturbam com qualquer material em que eles conseguem pôr as mãos. O que fazia o meu medo ainda pior era que eu também acreditava que meu interesse era sexual.

Quando você vê o mundo através de uma lente com forma de pato, todas as coisas parecem vagamente como um pato. O único arcabouço que eu recebera para entender meus interesses em mulheres era pelo desejo sexual, e portanto todo interesse feminino que eu tinha se tornara deformado em desejo sexual. Meu desejo de ser uma noiva metamorfoseou em tara nupcial (bridal kink), meu desejo de ter filhos se deformou em um interesse por pornô de gravidez, e meu próprio interesse em ser uma menina foi redirecionado em um fetiche de transformação.

Mas no topo de tudo isso, eu era apavorada de ser vista expressando interesse sexual legítimo em outras mulheres. Eu tinha amigos homens que eram notórios encaradores abobados-lascivos de mulheres (eles ficavam olhando demais para as mulheres que viam no dia a dia e se faziam de bobos quando confrontados); um dos meus ex-empregadores tinha o péssimo hábito de olhar lascivamente mulheres atraentes quando íamos almoçar, o que me deixava bem desconfortável em ser vista com ele.

Eu não conseguia ser associada ao olhar masculino. Mesmo ao redor das mulheres mais belas, eu evitava até olhar para elas, pois eu não queria ser vista como o tipo de pessoa que encara mulheres. Eu não queria ser vista como uma predadora.

Isso é o coercivo olhar masculino: heterossexualidade compulsória colocada sobre mulheres trans por ideologias heteronormativas. Uma dissonância cognitiva que causa intensa culpa e vergonha ao redor da apreciação de seus pares e interesses generizados.

Uma vez que você remove esse arcabouço masculino - uma vez que um consegue se perceber como mulher e aceitar que esses interesses e observações são válidas - essa vergonha e culpa completamente evaporam. Mesmo quando o interesse é sáfico em natureza e genuinamente inclui desejo sexual, ele não é mais manchado com essa camada de objetificação. Eu sou capaz de apreciar a feminidade e a beleza de meus pares mulheres sem julgamentos, eu consigo elogiá-las sem temer ser percebida como um creep (pessoa de comportamento desconcertante ou assustador, carrega conotação de assediador de mulheres) ou ter minhas intenções mal-interpretadas.

Isso era a disforia que eu não era capaz de pôr em apalavras até que eu foi finalmente aliviada dela. Eu estava ainda mais aliviada quando eu comecei a integrar em espaços-seguros de mulheres queer e vim a perceber que mulheres são tão sedentas quando homens, nós apenas somos (geralmente) muito mais respeitosas quando a isso. Foi um alívio de uma culpa que eu nem sabia que carregava.# Disforia Apresentacional

Roupas. Cabelo. Maquiagem. Joias. Óculos. Piercings e outras modificações corporais. Até mesmo higiene pessoal pode ser um fator de apresentação, tal como a depilação corporal, ou como você cuida de sua pele. Todas essas coisas são generizadas em nossa sociedade, especialmente roupas e cabelo.

Apesar da revolução sexual dos anos 1960 e a loucura da moda dos anos 80 fez maravilhas para borrar o vão entre a apresentação masculina e a feminina (majoritariamente pela normalização da moda masculina como andrógena), ainda há enormes pressões para conformar a normas tradicionais de gênero. Vestimenta não conformante de gênero é tão instantaneamente marcada como queer que toda vez que uma mulher veste um terno sob medida ela é marcada como lésbica, e um pai que coloca a fantasia da Elsa porque seu filho quer uma festa com tema de Frozen é rotulado como subversivo e como quem abusa de seu filho.

Cabelo longo em homens tem sido visto como um ato de rebelião de rock por décadas, e homens com cabelo longo são discriminados como vagabundos e pedintes. Cabelo curto em mulheres é frequentemente lido como queer ou butch (exceto se forem idosas, aí é esperado), e mulheres são frequentemente pressionadas a manter seus cabelos longos. Orelhas furadas em homens se tornaram meio que normalizadas nos anos 90, mas ainda são vistas como um ato de rebeldia, e alguns empregadores não permitem que homens usem brincos. Maquiagem em homens é tão estigmatizada pela masculinidade tóxica que mesmo homens que amam maquiagem sentem-se pressionados a evitá-la.

Goste ou não, apresentação é generizada, e é extremamente comum para pessoas trans quererem se apresentar à moda do seu verdadeiro gênero, e um desejo de ser livre das algemas apresentação generizada é comum em todas as pessoas trans, independentemente de onde elas estão no espectro de gênero. Para indivíduos AMAB, essas vontades se manifestam como um desejo de incorporar elementos mais femininos, para AFABs elas podem se manifestar como uma vontade de apresentação mais masculina. Isso pode vir como um grande empurrão ao oposto de seu AGAB (gênero designado ao nascer), ou um desejo de buscar um meio-termo em busca da androgenia. E pode ser simplesmente um desejo de não se apresentar como seu AGAB.

Nem todas as pessoas transfemininas se apresentam femininamente, nem todos os indivíduos transmasc se apresentam masculinamente, e nem todas as pessoas não-binárias buscam androgenia. Pessoas transgêneras AMABs butch são válidas, indivíduos transgênero AFAB femme são válidas. Apresentação não é gênero, e gênero não é apresentação.

Disforia Apresentacional tipicamente aparece cedo na forma de fascínio com o estilo de um outro gênero, e um desejo de ser capaz de se apresentar como pessoas desse outro gênero. Esse desejo pode ser cumprido um pouco por buscar estilos que são unissex, mas tipicamente esse desejo é autoporteriado (self-gatekept) por afirmações do tipo “Eu não estou confiante o bastante para tentar isso.” AMABs frequentemente encontram um problema aqui onde essa apresentação é mal-interpretada como desejo sexual.

Disforia Apresentacional Pós-transição é usualmente simplesmente um caso de alto desconforto quando se tenta se apresentar como seu AGAB. Isso pode nem ser sobre a aparência em si, mas com a forma como as roupas te fazem sentir. Durante o primeiro ano e meio da minha própria transição, eu não conseguia aguentar vestir camisetas unissex porque elas me faziam sentir mais masculina. Mesmo agora eu tenho que cortar os colares delas porque o pescoço próximo me faz sentir disfórica.

Efeito da Apresentação na Disforia Física

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Quando você está pronta para sair, você simplesmente rola para fora da cama e coloca qualquer coisa. Você não faz nenhum cuidado real com a sua aparência ou com o que está no seu corpo. Você é um pouco orgulhosa da sua falta de vaidade, da sua existência mais profunda e não-no-nível-de-aparência.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Suas roupas são escolhidas quase inteiramente por conforto. E para você, confortável significa solto e folgado. Você não aguenta vestir roupas (que os outros alegam ser lisonjeiras!) que são bem encaixadas nos lugares errados, que chamam a sua própria atenção a certas partes do seu corpo.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Compra de roupas si mesma é uma incômodo no melhor caso e uma fonte de estresse e ansiedade no pior caso. Quando você encontra roupas que encaixam bem e tem aparência okay, elas não te fazem *feliz*. Você não se sente mais confiante nelas. Você está apenas aliviado que você pode ir para casa.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Ocasiões em que você *precisa* se vestir bem, como casamentos e funerais e entrevistas de emprego, são o pior. Mesmo após todo o cuidado de aparência e roupas, você se sente auto-consciente e estranho em roupas formais. Você se sente *falso*, como um amontoado de lama fingindo ser uma pessoa elegante.

Vestuário também pode ter um papel importante no nível de disforia física que uma pessoa experiencia. Roupas de homens sempre tem cortes bem quadrados. Roupas de mulheres tem cortes com mais curvas, acentuando a cintura e o formato do quadril. Calças de homens apresentam cavalo mais baixo para ter espaço para os genitais externos, e ajuste para as curvas, enquanto calças de mulher são o oposto. Roupas de mulher frequentemente encaixam à forma, enquanto roupas de homem raramente se encaixam à forma. Roupas de homem são frequentemente feitas de materiais mais grossos e robustos, feitas para serem vestidas como uma única camada. Roupas de mulher são frequentemente feitas de materiais mais finos e elásticos, com a expectativa de que serão combinadas em múltiplas camadas.

Porque essas estruturas são feitas para encaixar as formas masculinas ou femininas, elas tendem a amplificar a sensação de algo errado. Um efeito clássico é a maneira em que jeans de homens e mulheres podem ter efeitos radicais no conforto de uma pessoa trans. Infelizmente, isso funciona em ambos os sentidos, já que mesmo roupa afirmante de gênero pode revelar como a sua forma é um desencontro.

Eu, mim mesma sou bem feminina em minha apresentação preferida, e eu tenho um anseio de usar vestidos desde que eu tinha apenas cinco anos de idade. Eu abominava vestir ternos, odiando a forma como eles se encaixavam no meu corpo, pois eles sempre puxavam em maneiras que me sentiam bem incorretas para o que meu corpo precisava. Eu recusei vestir qualquer jeans pela maior parte da minha vida porque jeans de homens sempre me sentiram tão incorretos (jeans de mulheres e leggings, entretanto, geram uma sensação incrível). Então, conforme eu entrava em minha transição e comecei a apresentar mais como mulher, minha disforia atacou novamente nas maneiras em que meu corpo não se conformava ao que as roupas de mulher esperavam (muito volume na virilha, ombros muito volumosos e largos, não grande o bastante no tórax). Não foi até o meu segundo ano que eu experienciei mudanças suficientes na minha forma para que as roupas de mulher estavam adequadamente afirmando a minha forma.

O que isso se parece? Bem, isso parece bastante como qualquer outro problema de imagem do corpo. Uma tendência a evitar qualquer coisa bem ajustada à forma, tendendo à tecidos mais macios e roupas mais largas. Um clássico esteriótipo (trope) de disforia de gênero é a criança que veste nada além de suéteres e moletons com capuz. Roupas sempre serão superdimensionadas para evitar que elas abracem o corpo. AFABs podem preferir vestir sutiãs esportivos comprimidores para minimizar seus peitos, e evitar qualquer coisa com uma cintura apertada.

Cherry Blossom @DameKraft

Sentir inveja de outras meninas por serem bonitas é uma coisa que muitas muitas mulheres sentem. Disforia é uma verdadeira fode-mente de camadas no topo dessas sensações, entretanto eu só quero dizer que se você é uma mulher trans sentindo inveja de outra mulher trans, isso é você sendo uma mulher de verdade.

Internamente é mais frequente isso se manifestar como um intenso ciúmes de pesoas que você gostaria que pudesse ser. Ciúmes pela forma do corpo de um influenciador, um forte desejo pela roupa de uma pessoa na rua, e mais especialmente inveja de outras pessoas trans. Essa sensação geralmente persiste bem dentro da transição, porque essa sensação de querer ser outras pessoas de seu gênero é na verdade completamente natural, mesmo para pessoas cis.

Efeito da Apresentação na Disforia Social

Apresentação pode ser importante para evitar misgenerização, especialmente no início da transição. Um monte de pessoas trans sentem que precisam performar seu gênero para serem aceitas por quem são, tendendo à apresentação feminina ou masculina mais que eles realmente gostariam para compensar por seus corpos e garantir que pessoas as generizem corretamente. Aquelas que procuram transição médica podem sentir que essa necessidade se torna menos importante conforme seus corpos mudam e elas se tornam mais capazes de serem corretamente generizadas sem toda essa performance.

Apresentação Performativa era praticamente requerida antes da reforma de WPATH em 2011; qualquer um que fosse a uma consulta médica sem apresentação extremamente feminina ou masculina arriscava ser rotulado como falso e perder seu tratamento sob a Escala Harry Benjamin. Mulheres trans realmente perdiam estrogênio simplesmente por vestirem jeans e camiseta ao invés de um vestido, ou por não colocarem maquiagem suficiente. Essa é uma das razões pelas quais a ideologia transmedicalista é tão perigosa: ela poderia fazer-nos retornar a esse sistema, rotulando como não verdadeiramente transgênero qualquer um que não cumpre as visões estereotipias de feminidade e masculinidade.

Apresentação é especialmente importante entre crianças pré-púberes, pois elas carecem de qualquer característica sexual secundária significativa. Vestimenta e cabelo são as únicas formas que temos para mostrar o gênero de uma criança, tanto que se um bebê simplesmente veste uma camiseta rosa, estranhos assumem que se trata de uma menina. Mesmo roupas unissex para crianças são fortemente generizadas pelas cores e imagens. Para crianças trans, pode ser extremamente angustiante ser forçada a cortar seu cabelo ou a crescê-lo. Negar vestidos a meninas trans ou a crianças não-binárias transfemininas, ou forçá-los a um menino trans ou a uma criança não-binária transmasculina, pode ser debilitante ao seu ânimo.

Disforia Existencial

Quando você cresce como o gênero errado, você perde muitas das coisas que lhe deveriam estar disponíveis se apenas as pessoas soubessem. Noite do pijama, viagens de acampamento, escoteiros/escoteiras^[Nos EUA, os grupos de escoteiros eram tradicionalmente divididos por gênero.], viagens de compras, torcida organizada ou esportes. Eventos que são mistos de gênero podem gerar sensações bem diferentes dependendo de como você engaja com eles, ex. ir para baile de formatura, cerimônias religiosas (ex. ter bat mitzvah ao invés de bar mitzvah), e até mesmo o mero ato de cortejo (paquera). Essa disforia também pode ser de origem biológica, tal como ter uma mágoa por não ter dado à luz ou não ter amamentado seus filhos.

Essas oportunidades perdidas podem se manifestar como sensações de perda e dor. Ademais, as memórias das coisas que você teve acesso mas não teria no caso contrário, ou eventos que foram performados no gênero errado, também podem ser um assunto delicado, pois eles podem ter gerado apegos estranhos. Imagine ter que ser o noivo no seu casamento quando você sabe que deveria ter sido a noiva; crescer sonhando com o seu casamento perfeito e então ter que fazer o papel errado nele.

Às vezes disforia existencial pode se manifestar existencialmente, atingindo-te com todo o luto da juventude perdida. Todo o namoro, as travessuras de adolescente, as festas, mesmo apenas ter sido capaz de ser sexual com as partes corretas enquanto o seu corpo era jovem e você não tinha responsabilidades. É o tempo que não pode ser tomado de volta.

Muitas pessoas trans tentam recapturar alguns deses eventos perdidos, fazendo ou participando de bailes de formatura queer, organizando noites do pijama, fazendo renovações dos juramentos com seus conjugues, e engajar em ritos de passagem comuns da puberdade tais como ter uma figura materna ajudando a comprar o primeiro sutiã, ou ter uma figura paterna ensinando a barbear-se. Entretanto, em última análise, disforia existencial é algo que nunca pode ser aliviado. Você pode fazer novas experiências para substituir aquelas que você perdeu, mas você nunca pode regredir o relógio.

Essa uma das muitas razões pelas quais afirmar jovens trans é tão importante. Meninos querem fazer coisas típicas de menino, meninas querem fazer coisas típicas de meninas, e crianças NBs querem fazer o que lhes sente correto, e quando elas perdem essas experiências elas não esquecem.# Disforia Gerenciada

Crescer no armário, ainda quando você não sabe que nele está, torna-se uma existência construída sobre mecanismos de coping propositados para aliviar disforia. Os itens abaixo são formas pelas quais uma pessoa trans pode encontrar para aliviar a disforia que experienciam em suas vidas diárias:

  • Quando um videogame lhe oferece a opção de escolher o seu gênero, você tende a escolher um gênero diferente daquele designado ao nascer. Isso pode ser acompanhado de desculpas para defender tal escolha. “O padrão é homem e eu não me importo.”, “Eu não quero ter que olhar para a bunda de um homem por horas.”

  • Uma preferência por literatura e filmes com personagens de seu vero gênero, ou com personagens que quebram normas de gênero (ex. Mulan, Little Women).

  • Saídas pornográficas que satisfazem fortes desejos ou sentem mais relacionáveis, tais como atração a porno gay/lésbico, fetiche de noiva, ou sequências de transformação.

  • Crossdressing (travestir-se) ou fazer drag.

  • Encontrar desculpas para cortar o cabelo ou deixá-lo crescer.

  • Aparar pelos, ou recusa em remover os pelos que de você são esperados.

  • Vestir roupas largas e folgadas que escondem o formato do seu corpo.

  • Evitar reuniões sociais sempre que possível, buscando isolação.

  • Tornar-se intimamente educado sobre sobre algum tópico associado gênero, tal como desenho de roupas de homem ou de mulher.

  • Exercitar-se obsessivamente (em AFABs).

  • Ajudar parceires cis a comprar para viver vicariamente pela apresentação delus.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Você se preocupa que você pode ser homofóbico, mesmo você acreditando em direitos gay, porque "coisas LGBT+" te enche com um profundo desconforto. Tudo isso parece tão extravagante e excessivamente sexual. Isso te faz querer encolher e desaparecer, antes que você morra de vergonha de segunda-mão.

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

Mais tarde, quando você encontra pessoas reais queer, ou seus amigos saem do armário, você começa a idolatrá-los. Mas você também fica com ciúme. Eles são *livres* e *reais* de uma forma que parece impossível para pessoas héteras, como você. Eles tem enormes preocupações, desejos e vidas de *pessoas reais*.

Porque tanto abuso é aplicado sobre crianças não conformantes de gênero, muitas pessoas trans crescem aprendendo a esconder suas personalidades naturais por pura necessidade. Muitas pessoas trans falam sobre ter uma fase da vida em que elas tentaram “aceitar a fundo” seu gênero designado, performando masculinidade ou feminidade a extremos para parecer em ordem e para tentar se consertarem. Isso leva a uma repressão de tendências que podem mesmo superficialmente parecer tóxicas, mas que simplesmente são os resultados de tentar esconder cada pedaço de seus verdadeiros eu.

  • Crescer e meticulosamente cuidar da barba (a chamada “barba da negação”).

  • Dedicar-se a arte de maquiagem para perfeicionar uma aparência muito feminina (look high femme).

  • Apresentar-se extremamente másculo ou hiperfeminina.

  • Evitar quaisquer conversas sobre moda para qualquer gênero. Dissociando-se sempre que conversas ou atividades de moda ocorrem.

  • Exercitar-se obsessivamente (AMABs).

  • Assumir um papel de gênero fortemente estereotipado em um relacionamento (ex. a bela e recatada dona-de-casa)

  • Casar-se e ter filhos em antecipação de que isso “consertará” o que há de errado contigo.

  • Assumir atitudes ultra-conservadoras quanto a gênero e sexualidade.

  • Expressar homofobia e transfobia em auto defesa para afastar suspeição.

  • Engajamento passivo agressivo em qualquer coisa conectada com seu vero gênero.

Finalmente, outro mecanismo de coping bem comum é encontrar meios de escapar ou engajamento mental para esquecer de seus próprios sentimentos.

  • Intensivamente investir grande quantidade de tempo em hobbies.

  • Longas horas gastas no trabalho.

  • Consumir mídia (filmes, TV ou livros) de forma incessante (binging)

  • Gastar todo o tempo livre jogando videogames ou em redes sociais.

  • Obsessivamente limpar seu espaço pessoal.

  • Dormir. Muitas e muitas horas dormindo.# Síndrome de Impostor

Nightling Bug 🗝️ @NightlingBug

@precociouspants @TorgHacker Você não precisa de disforia para ser trans!

Mas também, eu vi "angústia sobre não ter disforia suficiente" descrita como uma espécie de meta-disforia? Porque é um sofrimento que você experiencia quando você não é _____ suficiente para ser o seu gênero.

Síndrome do Impostor (também conhecido como fenômeno do impostor, impostorismo, s;indrome da fraude ou experiência de impostor) é um padrão psicológico no qual um indivíduo duvida de suas conquistas e tem um medo internalizado persistente de ser exposto como “fraude”.

A sociedade e geral é muito boa em fazer as pessoas trans duvidarem de si mesmas. Nós recebemos toneladas e toneladas de mensagens subliminares ao longo de nossas vidas dizendo que ser trans não é normal e que qualquer pessoa trans tem que ser um caso muito excepcional. A obsessão da mídia cis com a narrativa de “nascido no corpo errado” nos tem levado a muitas falsas informações sendo internalizadas pela juventude trans. Muitas, muitas crianças trans crescem pensando que elas não são trans porque elas não sabem que elas são um gênero diferente, elas apenas desejam que fossem. Muitas crianças não-binárias crescem sabendo que algo está errado, mas não acreditando que são trans porque elas não se sentem como uma pessoa binariamente trans.

Além disso, mensagens dizendo que pessoas trans odeiam seus corpos ou seus genitais tem poluído o cenário da conscientização, tanto que muitas pessoas que não experienciam disforia física (ou simplesmente acham que a sua não é forte o suficiente ) vivem acreditando que simplesmente não são “trans o bastante”.

SIM, VOCÊ É TRANS O BASTANTE

Faith @RoseOfWindsong

Pessoas gay 2 décadas atrás: *existem*

Preconceituosos: "Eles estão tentando tornar as nossas crianças gay! Nós temos que proteger as nossas crianças!"

Pessoas trans hoje: *existem*

Preconceituosos: "Eles estão tentando convencer nossas crianças gay que elas são o gênero errado! Nós temos que proteger as nossas crianças!"

Além disso, são internalizadas como um vírus as constantes mensagens vindas de mídia transfóbica dizendo que pessoas trans não sáo seus verdadeiros gêneros ou que estão simplesmente tentando enganar os outros em acreditar no contrário. Isso cria muita autodúvida sobre a autenticidade de seu gênero, especialmente em face de tantos esteriótipos de gênero. Ver-se falhar em atingir tais esteriótipos pode facilitar muito convencer-se de que você não é fiel ao seu próprio gênero (nota: homens e mulheres cis também sentem isso com muita frequência).

Ademais, devido a uma história de abuso transfóbico, muitas pessoas trans sofrem de auto-estima danificada, e frequentemente já tem dificuldade com auto dúvidas. Disforia de Gênero também causa depressão, o que contribui ainda mais para e reforça essas dúvidas. Isso tudo leva a um massivo aglomerado de auto invalidação que pode levar alguém a lutar de novo e de novo a aceitar sua própria identidade de gênero.

Mas aqui está a coisa… apenas pessoas trans estão preocupadas se elas são realmente transgêneras! Uma pessoa cis não tem essa obsessão com sua identidade, ela pensa nisso, ela processa isso, e ela vai fazer outra coisa. Se você vive retornando a esses pensamentos de novo e de novo, isso é o seu cérebro te falando que você fez uma curva errada.

O mundo é cheio de influências colocadas para nos encher de dúvidas e prevenir que quebremos a ordem social estabelecida. Esses são alguns dos mesmos sistemas e ideologias que buscam invalidar pessoas trans e prevenir que nos auto-realizemos.

Autoginefilia

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

Uma amiga minha que acabou de começar a sua transição nessa semana me perguntou ontem se eu alguma vez já fiquei excitada ao ver mim mesma. Eu imediatamente soube o que ela estava realmente perguntando, então isso é um PSA para todas as transfem que estejam se sentindo invalidadas por seus próprios corpos.

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

Eu vou ser direta: Seu gênero não é inválido porque você tem uma ereção quando você se vê vestida como feminina. Todas nós já tivemos isso. Isso não significa que você está fetishizando. Isso não significa que você não é realmente trans.

Tudo o que isso significa é que você se sente bem com a sua aparência.

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

Euforia de Gênero é sexy. Estar confortável em suas roupas é sexy. Gostar da sua aparência é sexy. *Sensações sexy são sexy!!*

Isso engatilha uma excitação, o corpo reage a coisas sexy.

Aqui está o tíquete: Mulheres Cis também tem essa sensação!!! É literalmente apenas uma ereção feminina!

𝓙𝓸𝓬𝓮𝓵𝔂𝓷 🏳️‍🌈 🏳️‍⚧️💞🐢 @TwippingVanilla

Conforme o tempo passa, essa reação acontece cada vez menso conforme você se acostuma a se apresentar como si mesma. Eventualmente a maioria das roupas são só roupas, é apenas o seu novo normal.

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Mas aquela roupa especial que te faz sentir super quente? Aquele novo vestido que você veste pela primeira vez e se sente realmente fofa? Aquela lingerie que você comprou especificamente para se sentir sexy?

Sim, isso engatilha aquilo. E tudo o que isso significa é que você está feliz.

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Deixe-me te dizer uma coisa, o massivo alívio que minha amiga mostrou ao aprender que isso é completamente normal foi palpável. Aquela pobre menina tinha se estressado contanto com aquilo.

Ela nem sabia sobre AGP, mas ela sabia os estigmas e estava aterrorizada de que isso significava que ela era falsa.

Esse padrão foi reforçado durante o fim dos anos 1980 quando a Teoria da Autoginefilia (AGP) fo Ray Blanchard ganhou muita tração quando a conscientização trans estava começando a crescer. AGP é uma explicação pseudocientífica cuja intenção era “explicar” a fonte das identidades das mulheres trans usando parafilias. Blanchard separou as mulheres trans de acordo com se eram atraídas a homens ou mulheres e simultaneamente invalidando as mulheridades delas. Seu trabalho ignorou completamente homens trans, e ele recusou inteiramente as identidade não-binárias.

A teoria do Blanchard dependia muito na forma em que apresentar-se como mulher geralmente resultava em excitação em mulheres que estavam começando suas transições. Veja bem, a maior parte de suas sujeitas de estudo eram pacientes que estavam tentando procurar terapia hormonal pela primeira vez, e como tal ainda sentiam muita novidade em se apresentarem como mulheres.

Sim, isso buga a minha mente mas essa era considerada uma teoria de psicologia válida por anos. Ela até aparecia em livros-textos universitários. Os estudos de pesquisa de Blanchard não tinham o rigor científico e seus dados era extremamente falhos (ele manipulou suas pacientes, e simplesmente jogou fora quaisquer dados que não se encaixavam em sua hipótese). Muito de suas teorias são baseadas em visões misoginísticas da mulheridade, e o pesquisador nunca incluiu mulheres cis em seus estudos para funcionar como grupo de controle. Você pode ler mais sobre quão falha era essa teoria no excelente ensaio The Case Against Autogynephilia (O Argumento Contra Autoginefilia) da Julia Serano.

AGP foi meticulosamente refutada pela psicologia moderna no fim dos anos 2000, mas o dano já estava feito. Nos olhos do público, mulheres trans eram todas fetichistas pervertidas. Retratos midiáticos de mulheres trans espelhavam essa atitude, espalhando ainda mais a imagem negativa na consciência pública.

Indivíduas transfemininas então internalizam essas mensagens e chegam a conclusão de que elas não são realmente transgêneras, apenas fetichistas. Isso aconteceu comigo e certamente aconteceu com quase toda mulher trans da geração millennial (nascidos entre 1981 e 1996) que eu conheço que se descobriram na adolescência.

Você não uma fetichista, o sentimento que você tem em pensar sobre si mesma como uma mulher é euforia de gênero.

Opressão patriarcal

Uma fonte comum de invalidação para AFABs é a fusão de gênero com a opressão sistêmica das mulheres, particularmente entre pessoas não-binárias sem transição médica. A mensagem “você não quer ser mulher só por como as mulheres são tratadas” é ouvida com muita frequência e ela pode infestar profundamente o seu subconsciente ao ponto de autodúvida. Mas isso não faz muito sentido, porque, se você é AFAB e uma mulher, isso te faz transgênere. E, na média, a sociedade trata pessoas trans pior do que mulheres. Então transicionar para escapar de opressão sistêmica é um conceito meio burro (e eu pessoalmente nunca encontrei uma pessoa trans que tenha feito isso).

A mensagem das Feministas Radicais de abandonar os papéis de gênero femininos também pode dificultar o entendimento de seus próprios sentimentos. “Eu sou realmente não-binárie ou eu sou apenas uma feminista?” “Eu sou realmente homem ou sou apenas uma lésbica muito butch (masculina)?”. Por isso, eu encorajo que você fale com feministas mulheres cis, especialmente lésbicas. Elas reclamarão dos sistemas de opressão e do patriarcado, mas os problemas são todos externos e elas querem ser mulheres. Mesmo lésbicas bem butch querem ser mulheres, apenas de uma forma diferente da feminidade mainstream (típica).

Então você tem o problema de pessoas acreditando que ser não-binárie é ser andrógene e que ser andrógene é ser menos feminina. enbies femininas são válidas! É okay mesmo se você não quer remover seus peitos. É okay mesmo se gostar de suas curvas. É okay mesmo se você não se importa em ser referide por “ela”. Isso não lhe faz menos transgênere.

Se você não se sente uma mulher binária, então você não é uma mulher binária. Mulheres cis não experienciam esse distanciamento/desconexão.

Masculinidade Tóxica

Crianças designas do gênero masculino crescem em um ambiente encharcado de mensagens do que é “ser um homem”. Há tão poucos exemplos de positividade masculinidade na mídia popular, e enbies AMAB masculinos também são tão comumente apagados na representação trans, que ser um homem genderqueer pode lhe fazer sentir muita solidão. enbies AMAB são frequentemente agrupados com homens gay cis ou tratados como mulheres trans.

Você pode ser apenas genderqueer! Sua identidade é válida!

Transmedicalismo

Essa atinge todo mundo. Transmedicalismo (também chamada de truetrans em inglês) é uma ideologia transgênera derivada da escala Harry Benjamin (níveis 5 e 6). Ela busca reforçar as regras pré-WPATH, exigindo intensa disforia física, demandando transição médica, e geralmente invalidando todas as identidades não-bináries. Em seu núcleo, transmedicalismo é um conceito supremacista, elevando as pessoas binárias trans acima das necessidades de qualquer outra identidade de gênero e empurram contra a expansão da identidade trans. Eles querem ainda mais porteiramento (gatekeeping) do que já temos hoje, recriminam contra enbies usando o rótulo transgênero e prefeririam ver menos pessoas recebendo tratamento para suas disforias de gênero.

Sucintamente, muitos transmedicalistas odeiam a que nova geração “tem tudo tão fácil”, apesar do fato de que muito de suas fileiras são dessa geração. Essa ideologia começou entre anciões transgêneros descontentes, mas tem desde então se espalhado para outros indivíduos binários, particularmente entre jovens homens trans.

Se a primeira exposição de uma pessoa pessoa à transgeneridade é transmedicalista, isso pode severamente atrasar sua própria auto-aceitação e empurrá-los ainda mais fundo no armário. Transmedicalistas são bem conhecidos por realmente dizer para as pessoas “Não, você não é trans.”.

Não acredite nessas mentiras. Elas são técnicas de intimidação e bullying explicitamente desenhadas para gaslampiar-te (gaslight you, isto é, manipular alguém para que esse alguém questione sua própria memória, percepção e sanidade) e repudiar/descartar a dor das pessoas para auto gratificação deles.

Feminismo Reacionário Trans-Exclusionário (TERFs) / Movimento Crítico de Gênero (GC) / Essencialismo de Gênero

Essencialismo de Gênero é a crença de que há atributos inatos a existência de uma pessoa que são derivados baseando-se em quais órgão sexuais a pessoa com. A ideologia TERF e GC nasceu do movimento de separatismo lésbico da segunda onda do feminismo e totalmente nega a existência de biologia transgênera e identidades não-binárias. Esse movimento foi majoritariamente tomado por reacionários de direita, racistas e homofóbicos, e agora está sendo apoiado por organizações cristãs evangélicas.

Essas pessoas não vão parar em nada para invalidar sua existência. Não gaste tempo com eles.

Abolição de Gênero / Pós-generismo

Pós-generismo é a filosofia transhumanista originária no feminismo radical que afirma que gênero causa mais mal do que bem e busca erradicá-lo de nossa sociedade. GAs (Abolicionistas de Gênero) acreditam que gênero é inteiramente uma construção social e que qualquer um que se sente fortemente conectado ao binarismo de gênero ou está nefastamente propagando esteriótipos de gênero ou está ignorantemente seguindo sua doutrinação sistêmica.

GAs não acreditam na existência de disforia de gênero e tentarão invalidar aqueles que a experienciam. Elas são funcionalmente a versão extrema-esquerda do Movimento Critico de Gênero.

Nota da curadora: A página a seguir vem de um post fantástico escrito pela Cassie LaBelle e foi recompartilhado com permissão. Você pode ler mais do que ela escreveu no Medium.

Eu Sou Trans?

Muito antes de eu começar a questionar o meu gênero, eu tinha essa fantasia em que uma das minhas melhores amigas chegaria em mim e diria: desista, você não está enganando ninguém.

Se você tivesse me confrontado sobre essa fantasia na época, eu não seria capaz de lhe dizer o quê, exatamente, eu queria dizer com “você não está enganando ninguém”. No fundo, eu sabia que era provavelmente algo ligado à gênero, mas os meus lábios não seriam capazes de formar tais palavras. Tudo o que eu sabia é que eu estava fingindo ser algo que eu não era, em uma forma vaga, passiva e efêmera.

Uma vez que eu me aceitei como mulher trans e comecei o longo processo de sair do armário, tudo o que eu queria é que alguém pudesse me dizer que ele já sabia. “Estou tão feliz que você descobriu” era o que eu queria que esse alguém jorrasse. “Eu soube da verdade por anos. Era tão óbvio. Eu não sabia que ninguém conseguiria pensar que você fosse um menino. Eu estou tão feliz que você finalmente pode viver como seu verdadeiro eu agora.”

Entretanto, ninguém jamais disse isso para mim. Meu processo de saída do armário foi um sucesso e a maioria dos meus amigos era apoiadora, mas eu nunca recebi a validação externa que eu desejava. Meus amigos e família me aceitaram como trans porque eu lhes disse que eu era trans. Eles não tinham notado que eu passei as últimas duas décadas vestindo o traje fantasia mal ajustado de um homem que mal existiu.


Minha boa amiga cunhou a frase “Egg Prime Directive” (literalmente: Diretiva Primária Ovo) para descrever o fato de que as pessoas trans tem um acordo não dito para não dizer as pessoas questionando o seu gênero se elas são ou não trans.

Quando alguém é simplesmente dito que ile é trans, isso abre margem para negação, isso ativa os mecanismos de defesa construídos pela transfobia internalizada e tem alta probabilidade de lhes empurrar mais para o fundo do armário, se isso não lhes tornar claramente transfóbicos. Mesmo quando isso não ocorre, isso deixa espaço no subconsciente para rejeitar sua disforia, alegando que está apenas sendo manipulade ou enganade. Uma estratégia muito mais afetiva é falar sobre as suas próprias experiências com disforia para que ile veja o terreno comum e chegue a sua própria conclusão sobre seu gênero. O código não proíbe ajudar-le a explorar seu próprio gênero, ele proíbe designar um gênero para ile. Ou, para ser mais sucinta, você não pode ser dite o que a matrix é, isso só pode ser mostrado.

Eu estou certa de há que algumas pessoas trans lá fora que não seguem a Egg Prime Directive, mas eu não as encontrei. É uma daquelas coisas que parece unificar toda a comunidade trans, eu mesma inclusa. Apesar de eu querer minha própria validação externa mais que qualquer coisa, eu agora vejo que a aceitação verdadeira poderia ter apenas vindo de dentro. A única pessoa que pode lhe dizer que você é trans é você mesme.

O paradoxo é que a maioria das pessoas trans amariadas são absolutamente horríveis em confiar na sua voz interior. Quando você passa a sua vida inteira com uma desconexão ranzinza entre como o mundo te vê e como você se vê, fica muito mais fácil confiar nos outros para lhe dizerem “quem você realmente é.” Mesmo se você sabe no fundo que todas as pessoas na sua vida estão esquecendo algum fato fundamental sobre a sua identidade, é quase impossível evitar de ouvir os outros ao invés de você mesme.

Minha meta, hoje, é te dar algumas informações e enquadramento mental que me ajudaram a me aceitar. Eu não posso dizer se você é ou não transgênere, mas eu posso te guiar a um caminho pelo qual você pode ser capaz de atravessar sozinhe. Eu não posso prover respostas, mas eu posso tentar te dar as perguntas certas.

Por que precisamos da Egg Prime Directive?

Nunca é seguro simplesmente dizer a alguém que ile é transgênere quando ile não se perguntou, mesmo quando você está com 100% de certeza que ile é. Você pode educa-le sobre Disforia de Gênero, você pode lhe mostrar paralelos entre os sentimentos dile e os seus, mas você não pode simplesmente dizer a uma pessoa “Você é transgênere”.

Por que? Porque, na maioria das vezes, ile não acreditará em você.

A transfobia internalizada tem nos doutrinado todos a acreditarmos que é impossível sermos trans ou que ser trans é algo negativo e ultrajante. Pressões de pessoas da família ou de nossas infâncias podem tornar extremamente difícil nos aceitarmos.

Tentar dizer a alguém que ainda não já está questionando que você acha que ile pode ser transgênere engatilha um mecanismo de autodefesa, seu subconsciente ativamente tenta rejeitar a afirmativa e há uma alta probabilidade de que a sugestão não só empurrará-le mais ao fundo do armário, mas também pode torna-le hostil contra você por ter feito tal sugestão. Muitos transfóbicos mostram clara evidência de lutarem com suas próprias contendas com gênero e não já falta de pessoas trans que tiveram um histórico de serem transfóbicas por autopreservação.

Mesmo quando a pessoa aceita sua declaração, o fato de que você a disse ao invés deixá-la descobrir por contra própria deixa uma abertura para a própria autoconsciência dela instilar dúvidas sobre sua disforia e acreditar que a ideia foi sugestiva ou que ela foi manipulada em acreditar ser trans. O único caminho seguro à frente para alguém aprender que é trans é deixa-le perceber por si próprie.

Finalmente, o propósito inteiro de ser trans é autoavaliação e autorrealização. Dizer a alguém que ile é trans é certamente uma avaliação tão coercitiva quanto a feita quando ile nasceu. Se você quer ajudar-le a se descobrir, diga-le sobre a sua vida, diga-le sobre como a disforia funciona e envie-le a esse site, dê-le formas de ver como o que ile experiencia não é algo com o qual as pessoas cis vivem.

Exceto, é claro, se ile te perguntar se você acha que ile é trans… então, aí, a Egg Prime Directive não se aplica mais.

Como sempre, por favor entenda que eu não tenho treinamento profissional em terapia de gênero. Eu estou simplesmente escrevendo isso a partir da minha própria pesquisa amadora e experiencias pessoais: majoritariamente a minha própria jornada e conversas que tive com outras mulheres trans e questionadores de gênero. Mantenha em mente que eu estou escrevendo isso a partir de uma perspectiva de uma mulher trans bem binária que transicionou no começo dos seus trinta anos, o que significa que ainda estou cega a muito da experiência trans. As coisas são diferentes para pessoas transmasculinas e não-bináres, bem como as de muitas outras mulheres trans. Esse documento não foi feito para ser um guia especialista universal. Ele é apenas o que tenho de melhor a oferecer neste momento.

Considere que a Maioria das Pessoas Cis Não Pensa Muito Sobre o Seu Gênero

Se você já está no estágio em que está questionando seu gênero, mesmo se for só pesquisar no Google “Eu Sou Trans?” e então fechar violentamente o seu laptop antes de ver os resultados da busca, parabéns, você já pensou mais sobre o seu gênero do que a maioria das pessoas cis irão sem todas as suas vidas.

Eu já perguntei a muitos dos meus amigos cis se eles já pensaram seriamente sobre suas identidades de gênero e nove de cada dez vezes eles dizem que não. Pessoas cis não ficam constantemente imaginando como seria ser uma menina. Eles não sonharam acordados sobre quão bom seria se eles acordassem em um corpo diferente. Seus corações não disparam quando eles pensam em filmes de troca de corpo. Alguns podem até ter imaginado como seria estar no corpo de um gênero diferente daquele de seu gênero designado ao nascer, mas esses experimentos mentais sempre foram breves e puramente intelectuais.

Não energia alí. Não para eles. Se você sente um estranho tipo de energia quando você pensa sobre gênero, então isso provavelmente significa algo.

Considere que a Maioria das Pessoas Cis Ativamente Gosta de Ser do Gênero que lhes foi Designado ao Nascer

Essa foi difícil para eu acreditar no começo, mas as pessoas cis realmente gostam de seus gêneros! Homens cis gostam de serem homens e mulheres cis gostam de serem mulher. Eles não ficam secretamente desejando que tivessem nascido no gênero “oposto” ou um ser sem gênero ou algo diferente, de verdade. Como já estabelecemos, eles não pensam muito sobre seus gêneros.

Há complicações aqui, claro. Muitos homens cis acham a masculinidade tóxica restritiva e horrível, escolhendo ativamente rejeitar os aspectos sociais problemáticos de seu gênero. Muitas mulheres estão profundamente frustradas pela misoginia, pelo patriarcado, e pela tirania dos papéis clássicos de gênero. “Gostar de ser homem” não significa, necessariamente, amar ter que reprimir suas emoções em todas as situações não esportivas e “gostar de ser mulher” raramente significa que você ame ser inferiorizada por seus colegas homens de trabalho ou ser constantemente questionada “quando você vai se casar?”.

Entretanto, uma vez que você corta tudo isso? Pessoas cis ainda gostam de seus gêneros. Elas podem até desejar que certos aspectos de como seu gênero é performado na sociedade fossem diferentes, mas elas ainda escolheriam manter seus gêneros designados ao nascer se trocar fosse uma possibilidade. infelizmente, muitas pessoas trans armariadas ouvem pessoas cis reclamando sobre os aspectos problemáticos e frustrantes seus gêneros e assumem que todo mundo tem o mesmo desgosto por seus gêneros que elas (pessoas trans) tem.

Pessoas trans armariadas também assumem que “Eu odeio ser homem” é o mesmo que “Eu gosto de ser homem”. Eu não sou capaz de te dizer quantas dessas moças questionantes me dizem alguma variação de “Eu não posso ser trans porque eu não odeio ser homem”, e então descrevem inúmeras pequenas coisas que elas desgostam sobre serem vistas como homem, como se seu gênero fosse um par de meias molhadas que elas nunca pudessem encontrar uma forma de remover.

Você pode se surpreender ao ouvir que eu não ativamente oviada ser vista como homem antes de eu sair para mim mesma. Ser vista como um cara não era uma fonte constante de miséria para mim. Era apenas… quem eu era, aparentemente, então eu aprendei a meio que só viver com isso. Muitas pessoas acreditam que você só pode ser trans se você se sentir ativamente machucada por ser vista como um homem, mas esse sentimento particular geralmente não chega até depois de você ter começado a transição e você finalmente sabe quem você verdadeiramente é. Antes das autoaceitação, seu relacionamento com seu gênero designado ao nascer provavelmente é mais de desconexão do que de sofrimento.

Eu não sou capaz de te dizer quantas vezes ouvi de mulheres trans armariadas dizerem algo como: bem, eu não odeio ser um homem, e homens tem muitos privilégios institucionais. Eu não acho que eu escolheria ser uma mulher, mesmo se eu pudesse, porque eu não gostaria de abrir mão do meu privilégio masculino. Claro, privilégio masculino é uma coisa real, mas não é uma recompensa que homens recebem por terem que aturar o eterno desconforto de serem homens. Homens gostam de serem homens e eles ainda gostariam de serem homens mesmo sem seus privilégios sociais. Se a única coisa que você gosta sobre a masculinidade é o privilégio, isso provavelmente significa algo.

Considere que a Disforia de Gênero Parece Diferente para Mulheres Trans que Ainda Não se Autoaceitaram

Por anos, eu pensei que eu não poderia ser trans porque eu não experienciava disforia de gênero. Eu estava muito errada.

Uma coisa que me impediu de perceber que eu estava experienciando disforia de gênero era a mesma razão pela qual peixes não sabem que estão nadando na água: é simplesmente como a minha vida sempre foi e então eu pensava que ser disfórica o tempo todo era um comportamento humano normal. Eu sabia que eu estava meio triste e que era mais que um pouco estranha e eu sabia que as minhas experiencias com masculinidade eram ao menos meio não conformantes de gênero, mas eu estava lidando com a dor da disforia todo santo dia sem ter qualquer ideia do que estava acontecendo. Não importa quão mal eu me sentisse, eu sempre conseguia levantar alguma explicação boa o bastante que não tinha nada a ver com gênero.

Um outro problema é que disforia de gênero se manifesta de forma diferente em mulheres trans pré-aceitação versos pós-aceitação. Eu sempre achava que a disforia de gênero era o sofrimento que você sente ao olhar no espelho se ver um menino te encarando de volta ao invés de uma menina, mas isso não era uma sensação que eu realmente tinha até eu começar a transicionar. Você não consegue sofrer por não ver uma menina no espelho até você perceber que você é uma menina!

Antes disso, a disforia se manifesta em dezenas de outra formas muito mais sutis. Eu escrevi sobre a minha experiência pré-aceitação aqui, no que virou o meu ensaio mais popular de todos. Eu fortemente recomendo lê-lo na íntegra caso você esteja questionando o seu gênero.

Considere a HipóteCis Nula

Em matemática, uma hipótese nula é algo que é geralmente assumido como verdade até que se prove falso. É uma suposição padrão, como “inocente até provado culpado”. Se você vai condenar alguém por homicídio doloso, por exemplo, evidências circunstanciais simplesmente não dão conta. Você geralmente precisa de esmagadoras provas físicas ou uma confissão ou outros sinais óbvios de culpa.

Esse excelente artigo pela Natalie Reed argumenta que ser cisgênero (isto é, não-trans) é tratado como uma hipótese nula pela nossa sociedade. Nós somos todos presumidos como sendo de nosso gênero designado ao nascer e nós sentimos como se precisássemos de esmagadoras evidências para provar a nossa transgeneridade. No caso contrário, continuamos assumindo sermos cis.

Isso faz sentido no grande esquema das coisas, porque há provavelmente mais pessoas cis no mundo do que pessoas trans. Como já discutimos antes, entretanto, a maioria das pessoas que são confortáveis com sua identidade de gênero não estão fazendo esse tipo de questionamento. Se você já chegou nesse estágio de auto-descoberta, há uma boa chance de que você não seja completamente cis.

A HipóteCis Nula (título original: The Null HypotheCis) põe uma questão simples e efetiva: quando você tira seus dedos da balança, quão provável é que você seja trans? Se você der as hipóteses gêmeas “eu sou cis” e “eu sou trans” igual peso, e você parar de exigir que a transgeneridade carregue todo o ônus da prova, o que sente correto para você? Se você começar a procurar por provas de sua cisgeneridade da mesma forma que sua transgeneridade, a ilusão pode às vezes ruir.

Considere que Se Você Quer Ser um(a) Menina/Menino, Então Você Já é um(a) Menina/Menino

É realmente tão simples. Homens querem ser homens e mulheres querem ser mulheres. Se você quer ser um homem então você é um homem. Se você quer ser uma mulher, então você já é uma mulher. Se você não quer ser nenhum, ou quer ser ambos, ou você quer às vezes ser uma mulher e às vezes um homem, então você provavelmente é algum tipo de gênero-fluido ou não-binárie.

“Mas você não pode só fazer isso!” eu ouço você dizer. Mas você absolutamente pode fazer isso. Na realidade, isso é basicamente a uma e única questão tem que responder para si próprie. Se você quer ser uma menina e você sempre se pensou como um cara, então você provavelmente será mais feliz vivendo como uma menina. Ao menos, vale tomar alguns passos para ver se transicionar lhe trará mais felicidade, certo?

Considere que Duvidar de Si Próprie Não Invalida sua Possível Transgeneridade

Por anos, décadas até, eu “sabia” que eu não era trans porque espera-se que pessoas trans “de verdade” tenham uma certeza inquestionável em suas próprias identidades. Eu internalizei essa imagem ficcional de uma jovem mulher trans exigindo que todos lhe tratem como a mulher que ela é, desafiante em face da oposição.

Isso é como ser trans era, eu achava; bravura, coragem, e uma certeza absoluta e inabalável em sua identidade. Isso não era eu, então eu não poderia ser trans!

Na realidade, muitas poucas pessoas trans realmente se sentem dessa forma antes da transição. Ao invés disso, nós todos começamos nossas jornadas inundadas de autodúvida. Essa certeza inabalável geralmente vem, mas no seu tempo, e pode levar meses ou anos de autoaceitação bem como (no meu caso ao menos) adicional validação na forma de terapia hormonal e transição social. Mas, ao menos no início, quase todos nós sentimos que nosso gênero é uma bagunça confusa. Nós sentimos que não podemos possivelmente ser trans o bastante para alegar uma identidade queer e que definitivamente não nos sentimos trans o bastante para transicionar. Nós nos preocupamos que estamos tomando a decisão errada, que estamos reagindo em excesso, e que pisar para fora do nosso pequeno casulo de autopreservação traz o risco de ser o maior erro que poderíamos cometer em nossas vidas.

Se você sente todas essas coisas, você está em boa companhia. Meu terapista até zoa que perguntar “eu sou trans o bastante?” é tão comum que é praticamente um sintoma de ser trans. Você simplesmente não consegue descobrir sua identidade de gênero sem questioná-la e autodúvida é uma parte normal desse processo.

Considere que a Sua Jornada Trans Pode Não se Encaixar com a Narrativa Popularmente Aceita

A cultura popular basicamente decidiu que que há apenas uma estória transfeminina que vale ser contada. É a estória de uma jovem menina trans que descobre sua identidade em uma idade bem jovem. Mesmo na infância, ela gravita para bonecas e festas de chá. Ela experimenta os vestidos de sua irmã mais velha e implora a sua mãe que lhe compre maquiagem e joias/bijuterias. Ela basicamente sempre se parece com uma menina também - características faciais femininas. baixa estatura, magra e andrógena. Se ela não transiciona na infância ou na adolescência, então ela de algum jeito chega na fase adulta ainda se parecendo mais ou menos como uma mulher. Ela faz cross-dressing o tempo inteiro e pode até ser uma drag queen. Ela também provavelmente sente atração por homens e pode ter trabalhado como uma profissional de sexo.

Essa é uma narrativa trans comum e válida. Eu conheço várias meninas que experienciaram alguns ou todos esses tropes (clichés). Afinal, há uma razão pela qual essa estória é contada de novo e de novo.

Dito isso, a vasta maioria das mulheres trans que conheço não são nada como isso. Muitas delas tiveram infâncias classicamente masculinas, completas com carrinhos de brinquedo, video games, e armas de brinquedo. Muitas nunca fizeram cross-dressing e se sentiam um tanto repulsadas pela cultura drag. Muitas delas cresceram com grandes corpos, largos ombros, e densas barbas. Muitas delas não sentem nenhuma atração por homens enquanto outras são bi ou pan. Muitas delas só começaram a questionar seriamente aos find dos vinte e começo dos trinta anos. Muitas não tiveram nenhum sinal de ser trans em seus passados. Elas simplesmente passaram suas vidas inteiras aceitando que eram homens e isso era isso. Até não ser mais.

Essa é uma narrativa transgênera comum, mas ninguém realmente falada sobre ela. Mulheres trans como essas - tipo eu - só começaram a se abrir sobre suas estórias nos últimos anos. Antes disso? A única estória que você ouvia era a que contei acima. Esse é o motivo pelo qual aquelas narrativas trans parecem “certas” e essa aqui parece “errada”.

Mas meninas como nós são incrivelmente comuns. Esse estudo científico de 2003 (alerta: a linguagem é meio antiga) relata as observações de ums pesquisadora que passou décadas trabalhando com mulheres trans. Na experiência dela, há três grupos distintos de mulheres trans, dois dois quais seguem o caminho de “Eu sempre soube” que relatei acima, e dom que não o segue. De acordo com ela, mulheres trans do “Grupo Três” tiveram infâncias classicamente masculinas e tendem não mostrar os sinais típicos de serem trans e tendem a só sair do armário mais tarde na vida. Embora algumas façam cross-dressing, muitas não o fazem, escolhendo lidar com suas disforias de formas mais sutis e internas. Eu não posso te contar o quanto eu me senti validada lendo aquele artigo durante a minha fase de questionamento, percebendo que há muitas outras mulheres trans como eu.

Eu também acredito que mais mulheres trans como nós estão saindo do armário agora porque há muito mais representação e muito mais recursos. Em 1991, 2011 e mesmo 2011, o caminho para a transição era muito mais difícil e a maioria das pessoas não conhecia ninguém abertamente trans. Nesse mundo, as únicas pessoas que escolhiam transicionar eram quelas para as quais não fazê-lo era quase impossível.

Não é só mais fácil questionar seu gênero aqui em 2021, é mais fácil ganhar acesso às comunidades trans, aos hormônios e a outros recursos cruciais. Se eu tivesse nascido trinta anos mais cedo, eu talvez nunca tivesse transicionado. Se eu tivesse nascido trinta anos depois, eu provavelmente teria transicionado ainda adolescente. Não se preocupe se você “sempre soube” ou não se essa é a primeira vez em que você teve a liberdade e os recursos para genuinamente se perguntar isso.

Considere que as Coisas Te Prevenindo a Sua Autoaceitação Podem Ter Nada a Ver com a Sua Identidade

Sempre que eu estou falando com uma mulher trans questionando, a conversa inevitavelmente se volta para os obstáculos que ela pode encontrar caso escolha transicionar. “Eu me preocupo que sou muito alta/grande/peluda/feia para transicionar” é um medo bem comum. “Eu me preocupo que a minha família vai me deserdar ou que mi parceire vai me largar” é uma outra preocupação que ouço muito. Outras meninas estão realmente preocupadas com suas carreiras, educações ou situações universitárias. Muitas temem que elas simplesmente não podem arcar com os custos médicos de hormonioterapia ou cirurgias trans.

Todas - todas - duvidam que elas tem a força para para lidar com a transição social. Sair do armário para amigos, vestir roupas femininas, lidar com transfobia… é uma bagunça aterrorizante, especialmente para mulheres trans armariadas, que geralmente se já se sentem com falta de resiliência. Essa coisa toda pode parecer cronicamente esmagadora.

Esses medos geralmente se manifestam em uma forma de auto-porteiramento. “Eu tenho medo que nunca serei uma menina bonita” vira “Eu não posso ser trans, porque e se eu não for bonita o bastante após a transição?” Isso parece um tanto bobo quando lido num vacuo, mas a pré-aceitação de meninas trans às vezes faz de tudo para convencê-las de que elas não são realmente trans. Eu definitivamente pensei que eu não era trans porque eu simplesmente não era capaz de me imaginar tomando hormônios e me vestindo como uma mulher todo dia. Isso era algo que pessoas de bravura faziam, e não pessoas como eu, logo eu não podia ser trans!

Por que nós fazemos isso com nos mesmas? Eu acho que tudo isso é sobre auto-proteção. Nós sabemos que a transição é incrivelmente difícil e então nós tentamos literalmente todas as outras opções no mundo antes de até mesmo começarmos a encarar a pergunta “eu sou trans?”. Nós desenvolvemos vozes auto-protetoras bem fortes que nos empurram com força contra a verdade porque então teríamos que nos preocupar com o terror do que vem a seguir.

Entretanto, aqui está a coisa: mesmo se você é trans, você realmente não tem que fazer nada sobre isso. Enquanto eu fortemente recomendo transicionar, é definitivamente possível se autoaceitar e então só…fazer nada. Manter o seu nome, seus pronomes e sua vida como ela é. Ou você pode mudar algumas coisas e aproveitar os pequenos pingos de euforia de gênero onde você pode.

A coisa mais importante a lembrar é que a verdade da sua identidade é separada de todas as esperanças e medos que você tem sobre transicionar. Se você é uma menina por dentro, não importa com o que você se parece. Não importa o que a sua família acha de você. Não importa se você tem ou não os meios ou até mesmo o desejo de transicionar medicamente. A identidade é uma coisa mental e espiritual, separada de toda essas. Se você é uma, você é uma menina.

Então comece alí. Descubra o quem você É, independentemente do que você pode fazer sobre isso.

Sempre que eu falo com uma mulher trans questionando que está presa nessas coisas, eu sempre tento remover esses fatores sociais tão bem quanto consigo. Eu faço perguntas hipotéticas como:

Você recebeu um botão mágico que irá permanentemente trocar seu gênero, dando-lhe um corpo do “gênero oposto” que é equivalente ao seu próprio sem idade, forma (no sentido de condicionamento físico, como na expressão: entrar em forma) e atratividade. Se você apertar o botão, todos na sua vida sempre terão te conhecido como uma menina. Eles te aceitarão imediatamente. Você não vai perder su parceire, seu trabalho ou sua família. Você aperta o botão?

Pessoas cis, aliás, nem considerariam apertar esse botão. Se vocÇe sabe no fundo do seu coração que você o apertaria mas ainda tem medo de se autoaceitar como trans, então seu ponto de atrito provavelmente tem mais a ver com seu medo de transicionar do que tem a sua verdadeira identidade.

Considere que Raramente é “Só um Fetiche”.

Eu não sou capaz de te dizer quantas pessoas trans (incluindo eu) começaram a explorar seus sentimentos de gênero no reino da fantasia sexual.

Há várias maneiras distintas disso se manifestar: brincadeiras de gênero (gender-play) com sus parceires, gostar de desenhos/HQs relacionadas a transformação de gênero, ler estórias sobre meninos que são transformados em meninas, ou interpretação de papéis com transformação de gênero com parceires em fóruns online ou apps de mensagens. Há tanto material disso por aí e muitas das pessoas que curtem isso são mulheres trans armariadas como eu era.

Isso faz bastante sentido quando paramos para pensar nisso. Sexo é uma dos poucos espaços da experiência humana no qual é seguro explorar gênero sem ter que encarar as questões maiores sobre identidade. É extremamente possível separar essas duas coisas na sua cabeça por anos e anos. Você é simplesmente um homem que ocasionalmente gosta de imaginar ser transformado e mulher. Isso não significa que você trans!

Infelizmente, explorar gênero dessa forma pode, na verdade, tornar a auto-aceitação mais difícil para muitas mulheres trans. Embora eu tenha achado esse tipo exploração absolutamente necessário nos meus dias pré-auto-aceitação, isso também significou que eu fui capaz de ignorar meus intrusivos pensamentos e sonhos acordados de gênero como “apenas fetiche”. Eu os tratei como algo oculto e vergonhoso ao invés de algo para investigar mais a fundo.

Essa é questão é adicionalmente complicada pelo termo “autoginefilia”, um falsa “teoria” transfóbica proposta por um psicólogo maluco chamado Ray Blanchard. autoginefilia propõe que muitas pessoas trans que se autoidentificam como mulheres trans não são realmente mulheres, mas sim homens creepy (causadores de desconforto) que se excitam pela ideia de serem mulheres ou terem uma vagina. De acordo com Blanchard, suas transições inteiras são apenas um elaborado jogo de fetiche em que eles forçam o mundo a participar.

Eu quero ser clara aqui: autoginefilia é bosta. Ela já foi descreditada por cientistas e pesquisadores de verdade muitas, muitas vezes. O propósito inteiro dessa teoria, até onde consigo dizer, foi tentar e conseguir que as pessoas cis começassem a ver mulheres trans como homens predadores sexuais. Felizmente, a maioria das pessoas cis não se sente dessa forma, e a maioria delas nem ouviu falar do Blanchard ou de autoginefilia.

Infelizmente, um monte de mulheres trans armariadas descobrem esse tipo de coisa enquanto então questionando e pensam “oh, eu só tenho autoginefilia? Talvez eu não seja realmente trans.” Isso é duplamente verdade para mulheres trans que gastaram muito de seu tempo expressando seus sentimentos de gênero em espaços sexuais, especialmente se elas se sentem sexualmente excitadas pela ideia de se tornarem mulheres.

Embora esse sentimento de excitação seja complexo demais para desempacotar totalmente em uma pequena seção de um artigo muito maior, eu digo que esse sentimento é realmente comum no início mas que tende a desvanecer conforme a sua transição progride. Parte disso tem a ver com o fato de que se você ligar a euforia de gênero à excitação sexual por tempo suficiente, elas vão se expressar parcialmente como a outra. Um pouco disso também tem a ver com o fato de que ser vista como seu verdadeiro gênero ou experienciar prazer sexual como seu próprio gênero é uma coisa incrível. De qualquer forma, não é “apenas um fetiche” se seus sentimentos são mais profundos que mera excitação sexual.

Considere o Amplo Guarda-Chuva de Identidades Trans

Se você não tem gasto muito tempo em uma comunidade com pessoas abertamente queer, você pode não ter completamente internalizado quantas formas distintas existem tanto de experienciar quanto de expressar seu gênero.

O mundo não-queer faz parecer que as caixas “homem” e “mulher” são coisas inteiramente diferentes com um massivo abismo vazio entre elas, mas isso não realmente verdade. Há, aproximadamente, uma infinitude de formas de expressar gênero, tanto dentro quanto fora dessas caixas e seu gênero pode estar em algum lugar naquele espaço indefinido. Eu sou uma mulher trans bem binária e eu gosto de estar dentro da caixa de menina, mas minha concepção de gênero bem como como eu escolho expressá-lo são geralmente inteiramente diferentes do que outras pessoas que também estão na caixa de menina.

Não há forma correta de ser trans. Algumas pessoas trans mudam a sua apresentação mais não mudam seus pronomes. Algumas pessoas trans mudam seus nome e pronomes mas não mudam a sua apresentação. Algumas pessoas trans são okay em viver como seus gêneros designados ao nascer contanto que elas saibam quem são por dentro.

Muitas pessoas trans não optam por cirurgias afirmantes de gênero ou hormônios. Muitas pessoas trans usam um nome diferente e pronome diferente dependendo de como elas querem ser vistas em uma dada situação. Muitas pessoas trans simplesmente criam uma relação com gênero que é levemente torta em relação à cisnormatividade, enfiam suas bandeiras e declaram isso como terminado.

Muitas pessoas trans se planejam transicionar de um jeito e no fim percebem que a sua identidade melhor se encaixa com algo que elas não conseguiam nem ver quando seus processos começaram.

Tudo isso é válido e a minha meta ao incluir tudo isso aqui é aliviar a pressão. É difícil se aceitar como trans se você sente que autoaceitação vai vir com um novo conjunto de expectativas impossíveis. Em verdade, uma das maiores alegrias de ser trans é perceber que você é realmente livre de todas essas ideias estreitas do que gênero pode e não pode ser.

Não importa o que você decida sobre seu gênero, o importante é ser veadeira com sigo mesma. Isso soa brega, mas se dar permissão para ser honesta sobre o que te traz e não traz alegria em termos de gênero e apresentação de gênero pode ser um ato explicitamente radical. Essa jornada pode te levar a um maior conforto em seu gênero designado ao nascer ou a algum tipo de identidade não-binária ou gênero-fluido, ou talvez você virá se juntar a mim aqui na caixa das meninas (nós temos bolo!).

O que quer que você escolha, faça porque isso te ajuda a se sentir mais como si mesme.

Considere que a Transição é menos sobre Descobrir uma Única Verdade Metafísica e mais sobre Fazer o que Te Faz Feliz

Um ponto de atrito que eu encontro bastante quando eu falo com mulheres trans em questionamento é que elas se paralisaram por medo e não estão dispostas a agir até terem resolvido a equação no centro de si mesmas e completamente aceitarem quem elas são, indubitavelmente, 100% trans.

Infelizmente, isso é praticamente impossível de fazer, especialmente antes de você ter tomado quaisquer ações para afirmar seu gênero. Não exame de sangue ou escâner cerebral que pode confirmar sua transgeneridade, então você nunca terá provas inequívocas. Eu não sou capaz de te dizer quantas meninas me mandaram mensagens semanas ou meses adentro de suas autoaceitações e disseram coisas como “ei, eu tive um dia bom hoje me apresentando como homem. Isso significa que eu não sou realmente trans?”

(A resposta: não" Eu tive vários dias bons em modo menino. E eu ainda sou uma menina.)

Para esse fim, vale manter em mente que você não é um quebra-cabeças a ser resolvido. Você não tem que performar uma classificação taxonômica exata de seu próprio gênero. Você é apenas humana com seu complexo conjunto de necessidades, desejos, sonhos, metas, medos, gatilhos e uma grande bagunça de todos o resto. Você é um ser contraditório, complexo, ilógico que contem vastas multitudes.

Isso é meio assustador, mas espero que também seja meio libertador. Não há um cronograma “correto” para a sua transição. Não há uma uma lista das coisas que você absolutamente tem que fazer. Você pode manter o seu nome, ou pode mudá-lo. Você pode fazer a cirurgia de confirmação genital, ou você pode manter o que já tem. Você pode usar vestidos ou você pode deixá-los todos para mim. Algumas moças trans tem se vestido como mulheres desde que eram crescidas o bastante para comprar roupas, mas eu não vesti um traje totalmente feminino até estar com três meses de hormonioterapia. Simplesmente não há regras. Elas foram todas inventadas por pessoas que estão mortas há centenas de anos.

Você também não tem que se comprometer a nada logo no início. Transicionar não é um gigantesco salto adentro do abismo, mas sim uma série de pequenos e voluntários passos. Todas as etapas iniciais são facilmente reversíveis e você nunca tem que fazer nada que você não acha que ajudará a fazer a sua vida melhor. Se você mantiver seus olhos nos seus pés, você cruzará o abismo antes mesmo de perceber.

Eu gosto de recomentar às pessoas que estão questionando seus gêneros que escolham uma ou duas pequenas coisas e as testem ao invés de ficarem presas em suas mentes o dia todo, esperando que mais evidências se apresentem. Depile seus braços, suas pernas ou seus seios. Use um pouco de esmalte. Compre uma peça de roupa feminina. Faça uma conta alternativa em redes sociais com um nome feminino e pronomes ela/dela e engage no mundo digital como uma menina. Conte a um ou dois amigos de confiança que você está questionando seu gênero e lhes peça que te chamem por um nome/pronomes diferentes em ambientes privados e veja como se sente. Mesmo os primeiros meses de hormonioterapia são facilmente reversíveis, caso você queira ver como a sua mente opera sob estrogênio.

Enquanto algumas dessas etapas provavelmente lhe farão sentir esmagada (diabos, você pode se sentir esmagada só de pensar nelas) você pode também sentir alguns pingos de absoluto êxtase em algum momento no processo. Pequenos momentos de “oh, oh, OH, eu gosto disso, isso me faz sentir bem!!”

Isso é euforia de gênero e é um sinal de que você está progredindo na direção correta. Se você seguir esses sentimentos, a onde quer que eles te levem, eu garanto que isso lhe guiará para muito mais felicidade a alegria.

Como a Disforia de Gênero é Diagnosticada?

Essa seção vai focar nos critérios diagnósticos sob o DSM-5, isto é, a quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico da de Desordens Mentais (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana (APA). A razão pelo qual foco nesses padrões é porque, bem, mais ninguém tem um. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido basicamente espelha o DSM da APA. Outros países tem seus próprios padrões, mas eles são todos bem similares ou muito mais desatualizados.

Os SoC (Padrões de Cuidado) da WPATH descreve formas de manifestação de Disforia de Gênero, mas eles não definem critérios claros de diagnóstico, mas deixam isso para profissionais de saúde mental, individualmente, fazerem seus próprios diagnósticos. Em geral eles defendem que se um paciente é de corpo são e mente sã e diz ter Disforia de Gênero, então ele deve ser acreditado. A peça chave aqui é “corpo são e mente sã”, isso é deixado para o profissional de saúde mental fazer a devida diligência para garantir que não há outras condições que podem estar causando o paciente a acreditar que tem Disforia de Gênero.

Ou para ser mais direta, a WPATH diz que se você pensa que você é trans, você é trans. Essa também tem sido a atitude que a maioria da comunidade tem adotado. Contanto que você acredite que seu gênero não se encaixa/casa com o que lhe foi atribuído ao nascer, você é trans. Contudo, planos de saúde não estão muito felizes com auto-diagnóstico, então aqui estão os critérios definidos no DSM-5 para diagnosticar Disforia de Gênero em alguém.

Para Sua Informação

Diagnóstico de Disforia de Gênero em crianças pré-púberes requer que a criança tenha seis meses de histórico documentado de cumprir seis desses critérios além de sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em funcionamento.

  1. Um forte desejo ser de um outro gênero ou insistência que se é de outro gênero.
  2. Uma forte preferência em vestir roupas típicas do gênero oposto.
  3. Uma forte preferência em papéis com cross-dressing em brincadeiras de faz de conta ou de fantasia.
  4. Uma forte preferência brinquedos, jogos ou atividades estereotipicamente usados ou preferidos pelo outro gênero.
  5. Uma forte preferência em brincar com pares do outro gênero.
  6. Uma forte rejeição de brinquedos, jogos e atividades típicas de seu gênero designado.
  7. Um forte desgosto com a própria anatomia sexual.
  8. Um forte desejo de ter características sexuais físicas que correspondem ao seu gênero experienciado.

Nota Esses são os critérios para adolescentes e adultos. Crianças tem um conjunto diferente de critérios que você pode encontrar aqui. Eu também dei uma leve alterada na redação deles aqui já que os critérios oficiais são binário-cêntricos.

Para um adulto ser diagnosticado com Disforia de Gênero por um profissional de saúde mental licenciado, ele deve cumprir ao menos dois desses seis critérios e tê-los por mais de seis meses.

  • Uma forte incongruência entre o gênero experienciado/expressado e suas características sexuais primárias e/ou secundárias

    A forma como a pessoa v6e o mundo e interage com ele não se alinha com a forma que ele é tipicamente esperado para alguém do gênero que lhe foi designado ao nascer. Há um número bem amplo de características que encaixam nessa descrição. Isso pode ser na forma como interagem com outros, como falam, quais hobbies preferem, como se vestem, sua linguagem corpórea e maneirismos, qual gênero com o qual mais se identificam (relate).

  • Um forte desejo de remover suas características sexuais primárias e/ou secundárias

  • Um forte desejo de ter as características sexuais primárias e/ou secundárias de outro gênero

    Esses dois são bem pareados. Isso é disforia física como previamente definido. A pessoa encontra desconforto com aspectos de seu corpo que que são resultado de seu sexo ao nascer.

  • Um forte desejo de ser de outro gênero

  • Um forte desejo de ser tratade como outro gênero

    Essas são as disforias social e societal. Elas são como uma pessoa quer interagir com o mundo e como quer que o mundo interaja com elas.

  • Uma forte convicção de que se tem os sentimentos e reações típicos de outro gênero

    Isso é bem autoexplicativo.

Como eu disse, apenas dois desses critérios precisam estar presentes para um diagnóstico formal. Você pode notar que apenas dois eles versam sobre o corpo físico. É perfeitamente válido uma pessoa trans experienciar Disforia de Gênero sem veramente odiar quaisquer partes do seu corpo, ou querer mudar quaisquer partes do sue corpo. Disforia Física é apenas uma fração das muitas formas que levam a ser trans.

Agora, aqui vem a encrenca. Se você se identifica como transgênere, significando que seu gênero não se alinha ao sexo binário que lhe foi designado ao nascer, você já cumpre dois desses critérios! Você tem desejo forte de ser do outro gênero que você está identificando que você é de outro gênero e você tem uam forte convicção do que o seu gênero se sente e não é o que lhe foi designado ao nascer.

REVISAR O PARÁGRAFO ACIMA!!!

Então é literalmente impossível para uma pessoa identificar-se como trans e não experienciar disforia de gênero. Pelos requisitos da WPATH, qualquer um pode se identificar como trans. Logo a afirmativa “você não precisa ter disforia para ser trans” é um paradoxo lógico.

Então porque ainda dizemos isso? Porque a maioria das pessoas não sabe o que a disforia de gênero realmente é e é mais fácil repetir o mantra do que explicar os nuances e sutilezas de como a Disforia de Gênero se manifesta. Mas ei, veja, agora você tem um bom artigo para compartilhar que pode ajudar as pessoas a entender isso.

Contexto Brasileiro

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) definia transsexualismo (sim, infelizmente usavam essa palavra) nas resoluções 1.482/1997, 1.652/2002 e 1.955/2010 como quem cumpria, simultaneamente, todos os requisitos abaixo:

  1. Desconforto com o sexo anatômico natural;
  2. Desejo expresso de eliminar os genitais, perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto;
  3. Permanência desses distúrbios de forma contínua e consistente por, no mínimo, dois anos;
  4. Ausência de outro transtornos mentais.

Já a resolução 2.265/2019, além de revogar as três anteriormente mencionadas, estabeleceu que:

  • Trans é quem não tem paridade entre a identidade de gênero e o sexo de nascimento, incluindo travestis.
  • Bloqueadores de puberdade a partir do estágio Tanner II, em caráter experimental.
  • 16 anos como idade mínima para hormonioterapia cruzada (cross-sex hormonal therapy).
  • 18 anos como idade mínima para cirurgias, desde que tenha acompanhamento há pelo menos 1 ano.
  • Para pacientes acima de 18, termo de consentimento para procedimentos clínicos e cirúrgicos.
  • Para menores de 18, termos de consentimento (dos responsáveis legais) e de assentimento (do menor de idade) para procedimentos clínicos e cirúrgicos.

Em particular, essa resolução deixou clara a questão da auto identidade ao dizer:

Art. 1º Compreende-se por transgênero ou incongruência de gênero a não paridade entre a identidade de gênero e o sexo ao nascimento, incluindo-se neste grupo transexuais, travestis e outras expressões identitárias relacionadas à diversidade de gênero.

§ 1º Considera-se identidade de gênero o reconhecimento de cada pessoa sobre seu próprio gênero.

Como a Disforia de Gênero é Tratada?

As opções de tratamento variam significativamente dependo das necessidades individuais pessoa. Toda transição é única e não há uma forma única de transicionar. Essa seção é uma lista de caminhos possíveis.

Transição Social

Em uma frase: Sair do armário. Isso é simplesmente anunciar ao mundo que você é transgênere. Você anuncia que você deseja usar um novo nome e/ou novos pronomes - ou não, você pode simplesmente querer que as pessoas saibam que você é trans e não se identifica realmente com seu gênero designado ao nascer. Para alguns enbies isso pode nem ser um passo inteiro em suas transições pois gênero é um espectro e há homens não-binários e mulheres não-binárias.

Uma transição social é o ato de pisar fora do armário e isso pode aliviar um monte de estresse oriundo da supressão de si próprie.

Transição Jurídicas

Isso é o processo de corrigir os seus documentos jurídicos para refletir seu verdadeiro gênero. Isso pode ser por uma ordem judicial para alterar o nome civil e o gênero na certidão de nascimento, inclusão de nome social em documentos oficiais, ou reemissão de certidões de nascimento e casamento.

No Brasil, adultos podem mudar o nome e o sexo nas certidões de nascimento sem necessidade de autorização judicial desde junho de 2018 graças ao Provimento Nº 73/2018 do CNJ.

Transição Apresentacional

Essas são as mudanças de como você se estiliza, sejam suas roupas, seu cabelo ou o uso de maquiagem. A nossa sociedade fortemente genderiza todas essas coisas e mudar a apresentação é tanto reafirmante para si próprio como também manda dicas para as pessoas ao seu redor de como se quer ser chamade.

Transição Médica

Para adultos, isso é hormonioterapia (também chamade de terapia hormonal e abreviada como TH) e cirurgia. Para adolescentes isso significa bloqueadores de puberdade até que sejam maduros o bastante para terem certeza de qual hormônio gonadal querem. Para pré-púberes, isso é basicamente nada. Deixe-me repetir já que os transfóbicos errando nesse ponto.

CRIANÇAS PRÉ-PÚBERES NÃO FAZEM TRANSIÇÃO MÉDICA.

Embora a Academia Americana de Pediatria fortemente encoraje a validação e aceitação da juventude trans e permita todas as outras formas de transição, eles explicitamente não apoiam, e o Conselho Federal de Medicina brasileiro proíbe, que médicos comecem a hormonioterapia ou bloqueadores de puberdade antes que a criança tenha atingido o estágio Tanner 2.

Ademais, nenhum cirurgião nos Estados Unidos ou no Brasil fará cirurgias de alteração de gênero em menores de idade (salas as “correções” feitas em pessoas intersexo o que é um problema fora do escopo deste artigo). Pouquíssimas crianças tem características fortes o bastante para serem lidas como homens ou mulheres sem as dicas providas pela apresentação. Permitir que uma criança mude seu cabelo e roupas é tudo que é necessário para a criança ser lida menino ou menina.

Transição Hormonal

Hormonioterapia Masculinizante (características sexuais femininas para masculinas) consiste ba introdução de testosterona, geralmente por via de injeção intramuscular ou gel tópico. O aumento no total de hormônios gonadais tipicamente causa cessão da ovulação que é a fonte da maioria do estrogênio produzido nos ovários.

Hormonioterapia Feminizante (características sexuais masculinas para femininas) consiste na introdução de estrogênio, tipicamente estradiol, por comprimidos orais, patches ou injeções regulares (intramusculares ou subcutâneas). O uso de implantes que lentamente dispensam hormônios está cada vez mais comum. É também prática comum prescrever um anti-andrógeno para bloquear a produção ou absorção da testosterona. O remédio mais comum para isso é o Acetato de Ciproterona, um bloqueador de receptores de andrógenos. Como ele não é disponível nos Estados Unidos, os americanos costumam usar a Espirolactona que é um remédio de pressão sanguínea que tem efeito colateral de bloquear a testosterona. Médicos podem também prescrever Bicalutamida que também bloqueia receptores de andrógenos. Entretanto, alguns médicos podem simplesmente optar por usar maiores dosagens de estradiol para causar uma parada na produção de testosterona pelo corpo.

Em adolescentes, bloqueadores de puberdade podem envolver os bloqueadores de andrógenos acima ou o uso de antigonadotropina (remédio que bloqueia os hormônios que causam a produção de estrogênio e andrógeno) tal como acetato de leuprolida (uma injeção a cada alguns meses) ou acetato de histrelina (um implante anual).

Transição Cirúrgica

Cirurgias transgêneras são tipicamente divididas em duas categorias:

Cirurgia de Baixo (Bottom Surgery, modifications to genitals).

  • Feminizante:

    • Orquiectomia (remoção dos testículos)
    • Escrotectomia (remoção do tecido escrotal, seguindo orquiectomia)
    • Vaginoplastia (criação de uma cavidade vaginal)
    • Vulvoplastia (criação de uma vulva com ou sem profundidade)

Para Sua Informação

Uma nova área em desenvolvimento de cirurgia de baixo são as operações, em AMABs não-bináries, que tentam fazer vaginoplastia sem a remoção do pênis. Essa cirurgia é extremamente experimental e foi feita menos de uma dúzia de vezes nos Estados Unidos, mas os prospectos para o futuro parecem bons.

Uma opção adicional para cirurgia não-binária é a cirurgia de nulificação genital que tenta completamente remover a genitália externa, deixando apenas uma apertura uretral.

  • Masculinizante:

    • Histerectomia (remoção do útero e cérvix)
    • Ooforectomia (remoção de um ou ambos os ovários)
    • Vaginectomia (remoção da cavidade vaginal)
    • Metoidioplastia (um processo que aumenta o tamanho do clitóris em um pênis)
    • Faloplastia (construção de um pênis a partir de um enxerto de pele)
    • Uretroplastia (extensão do canal uretral através do falo)
    • Escrotoplastia (uso dos lábios maiores e falso testículo para construir um escroto).

Cirurgia de cima (Top Surgery, modificações aos seios)

  • Feminizante:

    • Aumento dos peitos por transferências de gordura ou implantes.
  • Masculinizante:

    • Mastectomia bilateral (remoção do tecido dos peitos) com reconstrução do tórax.

Cirurgia Feminização / Masculinização Facial (modificações ao crânio, cartilagem e pele na face).

Quanto mais jovem uma pessoa começa a transição hormonal, menor é a necessidade dessas cirurgias, especialmente se começarem antes dos 20.

  • Feminizantes:

    • Recontorno da testa
    • Recontorno da cavidade ocular
    • Levantamento da sobrancelha
    • Correção da linha do cabelo
    • Blefaroplastia (levantamento das bolsas dos olhos)
    • Rinoplastia (remodelação do nariz)
    • Implantes de bochecha
    • Levantamento labial
    • Preenchimento labial
    • Recontorno da mandíbula
    • Depilação traqueal (redução do pomo de adão)
    • Ritidectomia (levantamento facial)
  • Masculinizantes:

    • Aumento da testa
    • Aumento da mandíbula
    • Aumento do queixo
    • Aumento traqueal (aumento do pomo de adão)

Outras cirurgias transfemininas:

  • Brazilian Butt Lift. Gordura da barriga é transplantada para os glúteos para aumentar a razão de quadril-cintura. BEM ARRISCADA
  • Cirurgia de Feminização de Voz. Uma incisão é feita nas cordas vocais para permanentemente aumentar o timbre.
  • Cirurgia Cinderella. Ossos no pé são diminuídos para reduzir o tamanho dos pés. EXTREMAMENTE ARRISCADA
  • Redução de Ombros. A clavícula (o osso que liga os braços aos tórax) é diminuída para reduzir a largura dos ombros. EXTREMAMENTE ARRISCADA# Qual é a Causa da Incongruência de Gênero?

Para ser direta: Nós não sabemos, pelo menos não com certeza. Psicologia moderna e ciência provaram que não é causado pela criação/ambiente; ninguém se torna trans, a identidade de gênero é congenital, solidificando antes mesmo de sairmos do útero. E ela parece ser às vezes hereditária; genitores trans tem maior chance de term filhos trans e muitas vezes eles percebem isso em reverso. O filho sai do armário para o genitor e isso o ajuda a perceber que ele também pode sair do armário.

Aqui está a ciência que se acredita influenciar a identidade de gênero. Isso não significa que isso define a identidade de gênero nem que isso encapsula o gênero de alguém já que tantos aspectos de gênero são culturais e sociais. Nada disso é prescritivo da identidade de uma pessoa, nada é escrito em pedra.

Se você assistiu Jurassic Park, você talvez se lembre dessa cena:

Todos embriões de vertebrados são inerentemente fêmeas mesmo. Eles apenas precisam de um hormônio extra no estágio certo de desenvolvimento para fazê-los machos. Isso não é ficção científica, embora seja muito simplificado.

As gonadas em fetos humanos inicialmente se desenvolvem em um estado bi-potencial, significando que elas pode ser ovários ou testis. O gene SRY do cromossomo Y libera uma proteína chamada Fator Determinante de Testis (TDF). Essa proteína começa uma reação em cadeia com a produção de SOX9 (outra proteína) que causa as células gonadais a se formarem em células Sertoli e Leydig que formam os testis. Se TDF nunca for produzido ou sofre interferência, então as células gonadais formam células Theca e folículos que compondo os ovários.

Uma vez formados, os testis então começam um pico de produção de testosterona que tipicamente começa na 8ª semana de gestação e continua até a 24ª semana. Esse pico, em combinação com um outro hormônio da placenta, é responsável pelo desenvolvimento do pênis e escroto. A formação dos genitais começa por volta da 9ª semana e se torna identificável por volta da 11ª semana. Se o pico não ocorrer, ou se o corpo não responder a ele (como no caso de Síndrome da Insensitividade Andrógena) então a genitália forma volva, vagina e útero.

Se há uma interferência nesse processo então pode acabar com as partes erradas e isso é o resultado de muitas condições intersexo. Geralmente isso é um desenvolvimento parcial no qual a genitália externa apenas parcialmente se forma mas as gonadas funcionais ainda existem. Às vezes a criança nasce com genitália masculina ou feminina totalmente funcionais mas com gonada não correspondentes. Às vezes a proteína TDF falha em ser lançada e o feto cresce um sistema reprodutor feminino completo apesar da presença de um cromossomo Y.

Isso é conhecido como Síndrome de Swyer e o número de mulheres com essa condição é desconhecido. Em 2015, uma mulher XY com Síndrome Sweyer que nascem sem ovários engravidou exitosamente por fertilização in vitro. Geralmente Síndro Sewyer resulta em ovários completamente não-funcionais, mas em 2008 uma mulher foi encontrada com Síndrome de Swyer que passou pela puberdade, menstruava normalmente, e teve duas gravidezes naturais. Sua condição só foi descoberta quando descobriram que sua filha também a tinha.

O fato é, a vasta maioria da população nunca fez exames de cariótipo (exame para ver os cromossomos) então não sabemos quão comuns esses casos são. Onde isso afeta a identidade de gênero? Bem, os exatos mesmos processos que causam diferenciação nos genitais externos também ocorrem no cérebro.

E isso fica bem mais esquisito!
Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics Normalmente o cromossomo Y carrega 27 genes, apenas 4 são relacionados ao sexo. Um, o SRY, determina (via o gene SOX9) se testículos ou ovários se formam no feto precoce. Outros 3 determinam a produção de esperma se os testículos se formam.

Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics O SRY é apenas um sinalizador para 3 áreas escuras do DNA para produzir mais genes SOX9, acima de um certo limite testículos se formam, abaixo disso, ovários.

Mas isso é apenas o começo da estória. Se ovários se formam então outro gene, o FOXL2, os mantém como ovários.

Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics O FOXL2 funciona com receptores de estrógeno para manter o ovários como um ovário sem o qual ele se transformaria em testículos e começaria a produzir testosterona por inibição da produção de SOX9.

Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics Mamíferos macho e fêmea produzem SOX9 até onde sei durante todas as suas livas (eu preciso checar isso) e mesmo se já há ovários se o nível se torna auto o suficiente então os ovários se tornam testículos.

Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics Mas a produção de FOXL2 depende de estrógeno suficiente e/ou dos receptores de estrógeno funcionarem corretamente. Se algo dá errado com um dos dois então a produção de SOX9 aumenta e os ovários existentes se tornarão testículos e produzirão testosterona.

Lisa T Mullin @LisaTMullin

@TransEthics Então existe um laço de feedback: Não ter o SRY significa menos SOX9, logo ovários se formam. Eles produzem estrógeno que causa a produção de FOXL2 que suprime a produção de SOX9 para manter os ovários como ovários. Se algo dá errado e os níveis de SOX9 aumentam o suficiente então os ovários se tornam testículos.

Divisão Cerebral

O cérebro pré-natal não começa realmente a se desenvolver até entre as 12ª e 24ª semanas. O córtex cerebral, a fina camada externa do cérebro que contém a maioria do que pensamos como a consciência, cresce substancialmente durante esse período de tempo. Antes disso, a estrutura presente é mais como um andaime: as partes básicas do sistema nervoso necessárias para o funcionamento do corpo. Os sulcos primários (as dobrinhas do córtex cerebral que permitem maior área de superfície) começam a se formar na 14ª semana, bem depois dos genitais serem formados.

foi confirmado múltiplas vezes, por estudos de MRI (ressonância magnética), que há pequenas porém significantes diferenças entre cérebros de homens e mulheres cis, diferenças que alinham com as identidades de gênero de pessoas trans. Note, isso não significa que todos com essas diferenças terão tal gênero porque identidade de gênero não é tão simples, mas isso provê evidência de que há clara diferença cérebros masculinos e femininos. Há também evidência de que cérebros podem ter combinações mosaicas que pode ser o caso em pessoas não-binárias.

Uma mudança no nível de testosterona no feto após a 11ª semana pode diretamente impactar a masculinização do córtex cerebral bem como impactar as mudanças em outras partes da estrutura cerebral. Isso foi examinado múltiplas vezes em estudos de pessoas designadas mulher ao nascer com HAC (hiperplasia adrenal congênita) e com SIAC (síndrome da insensibilidade androgênica completa).

Nós encontramos uma relação significativa entre testosterona fetal e diferenças por sexo no comportamento de meninas e meninos.

Testosterona Fetal Prediz Comportamento Sexualmente Diferenciado em Meninas e Meninos

Um excesso de testosterona no corpo da mãe durante o segundo trimestre pode e causa masculinização no cérebro de um feto externamente fêmea, e uma interferência na produção ou absorção de testosterona pode e causa feminização do cérebro em um feto externamente macho. Essa interferência não precisa ser externa em origem. Vários fatores genéticos podem fazer o cérebro responder diferentemente à testosterona.

Um estudo decentemente grande de indivíduos trans publicado em 2018 encontrou vários genes estatisticamente mais provável de serem mais longos em mulheres trans (mais longo no sentido de ter mais fragmentos repetidos). Individualmente esses genes podem não ter um impacto forte o bastante para causar mal funcionamento da masculinização, mas em conjunto eles absolutamente podem reduzir a habilidade do cérebro fetal de masculinizar. Esses genes são passados de genitores à prole dando credibilidade a tendência de pais trans terem filhos trans.

Gênero é biológico

Infelizmente, a sociedade ocidental tem ativamente evitado um entendimento mais profundo de gênero. Civilizações antigas o entendiam bem, mas colonialismo as removeu do mapa. Cem anos atrás, cientistas na Alemanha estavam ativamente estudando medicina transgênera e fizeram extraordinários avanços , até os Nazistas queimarem tudo em 1933. Pressões conservadores e fascistas na era moderna tem obstado avanços em saúde trans sempre que possível.

Ainda assim, progresso continua, a cada ano nós aprendemos um pouquinho mais.

O que sabemos com certeza é que transgeneridade não é uma condição psicológica, não é algo causado por trauma ou qualquer influência externa, nada pode fazer uma pessoa transgênera. Isso acontece no útero, e não é algo que a pessoa pode escolher tal qual não pode escolher sua raça ou cor dos olhos. Isso não tem nada a ver com orientação sexual, isso não tem nada a ver com taras ou fetiches, e isso não tem nada a ver com influências de seus pais ou seus pares. Crianças cisgêneras e transgêneras são igualmente firmes em suas identidades de gênero.# Mas os Cromossomos!!!

🏳️‍⚧️ TransEthics™🧜🏻‍♀️ #BlackTransLivesMatter @TransEthics

Eu eventualmente vou me arrepender de ter pago o co-pay para esse teste porque foi bem caro… mas eu fiz o meu cariótipo. Acabei de receber os resultados.

I –uma mulher trans– tenho cromossomos XXX.

a turma GC [Gender Critical] pode ir #@%@&*$

Há dezenas de formas pelas quais cromossomos são mais complexos do que meramente XX e XY. Medicamente elas são referidas como DDSs (Desordens de Desenvolvimento Sexual). Nem todas resultam em uma condição intersexo, e muitas apenas se manifestam no início da puberdade.

  • Síndrome de la Chapelle (46,XX Macho) ocorre quando o gene SRY do esperma paterno cruza em um esperma sem cromossomo Y durante a espermatogênese. Quando o óvulo e o esperma se fundem, isso resulta em um embrião XX com gene SRY, criando uma criança fenotipicamente do sexo masculino com dois cromossomos Y.

  • Síndrome de Swyer (46,XY Fêmea) produz uma criança fenotipicamente do sexo feminino com um cromossomo XY. Isso oriunda de uma dezena de diferentes condições genéticas, incluindo:

    • Ausência ou defeito do gene SRY.
    • Ausência ou defeito da síntese de DHH
    • Ausência da proteína SF-1 devido a falha adrenal
    • Ausência ou defeito do gene CBX2, impedindo a cascata TDF
  • Disgênese Gonadal XX é bem similar a Síndrome de Swyer, exceto que ocorre em crianças XX e resulta em ovários não funcionais.

  • Síndrome de Turner (45,X) produz uma criança fenotipicamente do sexo masculino com numeras anormalidades. Isso ocorre quando nem um cromossomo X nem Y cruza do esperma.

  • Síndrome de Klinefelter (47,XXY) resulta em uma criança fenotipicamente do sexo masculino com características mais femininas. Em casos extremamente raros, ela aparece em crianças designadas mulheres ao nascer também, resultando em testículos feminizados ao invés de ovários.

  • 49,XXXXY Síndrome de Klinefelter é geralmente fatal, mas quando não é, sempre resulta em uma criança estéril.

  • Trissomia X (47,XXX), Tetrasomia X (48,XXXX), e Pentasomia X (49,XXXXX) todas resultam em uma criança do sexo feminino mas com cada vez mais problemas de saúde.

  • Síndrome XXYY resulta em crianças do sexo masculino (devido aos dois genes SRY) que geralmente experienciam hipogonadismo, precisando de suplementos de testosterona mas de resto parecem com um homem típico.

  • Mosaicismo resulta quando algumas células no corpo tem um conjunto de cromossomos e outras células tem outro conjunto de cromossomos devido a uma mutação genômica durante a gestação. Isso pode ser XX/XY (resultando em conjunto duplo de genitais), X/XY (uma forma mais leve da síndrome de Swyer ou de Turner) or XX/XXY (uma forma mais leve da síndrome de Klinefelter).

  • Quimerismo ocorre quando dois embriões fertilizados se fundem em um único zigoto, fazendo metade da criança de ter um conjunto de DNS e a outra metade a ter outro conjunto de DNA. Isso pode resultar em um ser humano típico do fenótipo masculino ou feminino, sendo até mesmo capazes de gerar prole. Em um teste de cariótipo, o teste pode voltar não batendo com o fenótipo da pessoa dependendo de onde no corpo a amostra foi tomada. Em casos extremamente raros, isso pode resultar em dois conjuntos de órgãos reprodutivos.

  • Hiperplasia Congenital Adrenal(HAC) é uma masculinização dos geniais femininos em uma criança XX devido a glândulas adrenais hiperativas.

  • Síndrome de Insensitividade de Andrógenos(SIA) é uma resistência total ou parcial a todos os andrógenos, impedindo masculinização de todos os órgãos, exceto pelo testículo, em uma criança XY. Pacientes com SIA tipicamente desenvolvem uma identidade de gênero feminina, mas alguns casos parciais podem resultar em uma identidade masculina.

  • Deficiência da 5-alfa-redutase(D5AR) é uma falha na habilidade do corpo de metabolizar a testosterona em dihidrotestosterona (DHT), impedindo a masculinização da genitália até o início da puberdade, quando a criança repentinamente começa a crescer um pênis.

  • Deficiência de Aromatase causa masculinização de uma criança outramente do sexo feminino devido a níveis excessivos de testosterona (e que pode afetar a mãe durante a gestação).

  • Aromatase Excess causes feminization in an otherwise male child, as all testosterone is converted into estrogen.

  • Excesso de Aromatase causa feminização em uma criança outramente do sexo masculino pois toda a testosterona é convertida em estrogênio.

Como Hormônios Funcionam

Como descrevemos na seção Causas da Disforia de Gênero, todo DNA de seres humanos contém instruções tanto para corpos femininos quanto masculinos, e cujo conjunto de instruções usado é controlado por quais hormônios as suas gonadas produzem. Essa diferenciação ocorre inteiramente baseada em você ter ou não um gene SRY que, nas 6ª a 8ª semanas de gestação, ativa uma reação em cadeia que produz testis ao invés de ovários. Desse ponto de vista, cada atributo sexual do ser humano (primários e secundários) é um resultado dos hormônios que essas gonadas produzem.

Se eles produzem estrogênio (primariamente estradiol), então os genitais formam uma vulva, vagina e útero. Se eles produzem andrógenos (primariamente testosterona) então os genitais foram um pênis e escroto, movendo a glândula de Skene para baixo e a alargando em uma próstata. A diferenciação termina aqui e só retorna na puberdade, uns 9 a 10 anos depois, e todos nós sabemos o que a puberdade faz.

Então como isso funciona? Por que as células diferenciam dessa maneira? Antes de explicarmos isso, precisamos primeiro explicar o conceito de um Receptor.

Receptores Hormonais

Em termos bem simples, um receptor é como uma uma fechadura de ignição de um carro (os carros novos ainda usam chave para ignição?). Toda célula no corpo tem um conjunto de fechaduras que ativam diferentes funções dentro da célula. Eles são como interruptores que só aceitam certos compostos químicos, de forma bem similar a como uma fechadura só aceita certas chaves, e compostos químicos diferentes tem diferentes capacidades de girar a chave. Alguns podem iniciar completamente o carro enquanto outros apenas ligam as luzes.

A habilidade de um composto químico de se encaixar em um receptor é chamada de Afinidade de Ligação, e é medida como uma porcentagem indicando a probabilidade do composto químico se ligar a um receptor em comparação a outro. Então, por exemplo, se o hormônio B só se liga 10% das vezes em relação ao hormônio A, então dizemos que ele tem uma afinidade de 10%. Similarmente, a capacidade de um composto químico de girar a chave é chamada de Habilidade Transativacional. Compostos que encaixam em um receptor mas não fazem nada são ditos Antagonistas, compostos que são capazes de girar a chave são ditos Agonistas. Se o composto só gira a chave um pouquinho ele é dito Agonista Parcial.

Você pode pensar nos antagonistas como leões de chácara em casas noturnas. Eles ficam na porta e controlam quem entra apesar deles mesmos não entrarem na casa noturna. A maioria dos antagonistas é referida como bloqueador. Isso é diferente de um inibidor, que é um composto que desacelera uma reação química, e é diferente de um ativador, que acelera uma reação. Em receptores, o inibidor reduz a capacidade do receptor, fazendo-o responder menos eficazmente a compostos que se ligam ao receptor, e um ativador aumenta a habilidade do receptor, tornando a resposta mais forte, como um potencializador.

Em alguns casos, um hormônio pode funcionar como um inibidor ou ativador para outro hormônio, reduzindo ou aumentando um comportamento na célula. Por exemplo, progesterona aumenta a atividade celular, fazendo as células responderem mais eficazmente a estrogênios e androgênios, e testosterona aumenta a habilidade transativacional dos receptores de dopamina, então menos dopamina é necessária para o mesmo efeito.

O que é um hormônio

Há quatro tipos principais de hormônios:

  • Aminoácidos como melatonina que controla o sono ou Tiroxina que controla o metabolismo.
  • Peptídeos, como Oxitocina e Insulina que são coleções de aminoácidos.
  • Eicosanoides que são formados de lipídeos e ácidos graxos e predominantemente afetam o sistema imune.
  • Esteroides são moléculas sinalizadoras produzidas por diversos órgãos internos para passar mensagens a outros órgãos do corpo.

Para os propósitos de transição, essa última categoria é a com a qual mais nos importamos pois todos os hormônios sexuais são esteroides. Eles caem em sete categorias principais:

Os três primeiros tipos são os com os quais nos importamos quando o assunto é hormonioterapia. Nota: todos os seres humanos, independentemente de fenótipo, tem um pouco de cada um desses hormônios em seu corpo. As proporções são o que afetam o formato do corpo.

Andrógenos

Há quase uma dúzia de andrógenos diferentes, mas alguns com os quais nos importamos mais com são Testosterona e Di-hidrotestosterona.

Testosterona é o principal hormônio masculinizante para o corpo humano e é produzido nas glândulas adrenais, nos testículos, e nos ovários (onde ele é imediatamente convertido em estrona e estradiol). Ela informa tanto músculos quanto ossos a crescerem e em altas concentrações encoraja maior massa muscular e estrutura esquelética mais grossa. Isso também significa que testosterona é crítica para saúde óssea, pois ela afeta a distribuição de cálcio dentro da estrutura esquelética. Portanto, severa depleção (falta) de testosterona pode resultar em osteoporose e e fragilidade óssea. A testosterona também desempenha um papel chave no desejo sexual e libido, encorajando comportamento acasalador dentro do córtex cerebral.

Di-hidrotestosterona (DHT), que é convertida da testosterona na próstata, pele e fígado, desempenha um papel chave no desenvolvimento da genitalia masculina durante a puberdade induzindo ereções aleatórias e crescimento de barba e pelos. Paradoxalmente, DHT também é o que causa alopecia (calvície masculina) pois ela bloqueia a circulação sanguínea de chegar aos folículos no topo do couro cabeludo (desculpe, meninos trans, isso é uma faca de dois gumes). DHT também se liga com dez vezes mais força aos receptores de andrógenos em relação a testosterona. Por isso que é crucial eliminá-la para transição feminizante.

Estrogênios

Há quatro estrogênios: Estradiol, Estrona, Estriol e Estetrol. Os últimos dois só são produzidos durante a gravidez e são importantes para saúde fetal, mas não tem papel em transição de gênero.

Estradiol é o hormônio feminizantes pois é o hormônio sinalizador primário para o crescimento de glândulas mamárias (peitos), e porque ele encoraja a deposição de gordura nas coxas, quadril, nádegas, seios e braço, enquanto desencoraja a deposição de gordura no abdomen e portanto proporciona uma figura com mais curvas. Estradiol também promove aumento na produção de mais colágeno, resultando em pele mais macia e tendões e ligamentos mais flexíveis.

O papel da estrona no corpo tem sido uma espécie de um quebra-cabeças na pesquisa médica pois ele tem afinidade de ligação significativamente menor comparado ao estradiol (0,6%) e tem habilidade transativacional muito baixa (4%). O hormônio não parece fazer nada, ele só fica no sangue. Porém, ele tem a habilidade única de se converter de e em estradiol através de uma enzima do grupo 17β-HSD tornando-o idealmente colocado para funcionar como uma bateria de estrogênio no corpo.

Novas pesquisas estão começando a sugerir que o corpo talvez regule os níveis de estradiol total soltando HSD17B1 para converter estradiol em estrona e soltando HSD17B2 para convertê-la de volta, porém isso ainda é um estudo bem preliminar. Ambas as enzimas são produzidas no tecido mamário e talvez tenham um papel na presença de sintomas cíclicos similares aos da menstruação em indivíduos sem ovários, como mulheres trans por exemplo.

Para sua informação

Por que pessoas AFAB trans não tomam bloqueadores de estrogênio junto com a testosterona?

Há duas fontes separadas de estrogênios no sistema reprodutor feminino. Ovários contem milhares de folículos, estruturas celulares que produzem óvulos. A glândula pituitária produz o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio folículo-estimulante (FSH), que encoraja os folículos a crescerem em células luteais. Células teca dentro do folículo produzem testosterona e as células granulosas produzem a enzima aromatase que converte essa testosterona em estradiol. Essa é a primeira fonte de estrogênio mas ela não é a maior.

Nota: Esse é o motivo porque PCOS (Síndrome do Ovário Policístico) faz com que os ovários produzam testosterona; os cistos ovarianos atrapalham a produção de aromatase então a testosterona não é convertida.

Às duas semanas do ciclo menstrual, o hipotálamo informa a glândula pituitária para que produza um pico de LH e FSH três a quatro vezes mais forte que no começo do ciclo. Esse pico fas os folículos incharem até algum se romper soltando um óvulo ficando o restante do folículo uma estrutura conhecida como corpus luteum). Esse corpos luteum então começa a produzir progesterona e significativamente mais estrogênios para preparar o útero para o óvulo fertilizado. Essa é a segunda fonte.

Tomar testosterona faz o hipotálamo desativar os genes que iniciam esse pico de LH e FSH então os folículos nunca atingem a maturidade, a ovulação nunca ocorre, e o corpus luteum nunca é formado, removendo a significativa fonte de estrogênio dentro dos ovários.

Então não Reddit, não é simplesmente “porque a testosterona é mais forte”, é porque os ovários são bem mais complexos que as testes e são mais fáceis de perturbar. Por favor, pare de espalhar essa mentira.

Progestinas

A progestina primária é a progesterona que desempenha numerosos papéis no corpo e já foi identificada como um importante componente da hormonioterapia feminizante.

Um dos maiores papéis que o receptor de progestina faz é a regulação da função gonadal (ovários e testis). O hipotálamo é positivamente repleto de receptores de progestina e responde fortemente a sua ativação, reduzindo a produção de GnRH que então reduz a produção do hormônio luteinizante (LH) pela glândula pituitária.

LH é o que informa aos ovários e testis que produzam estrogênio e andrógenos. LH e seu hormônio irmão FSH ambos desempenham papéis centrais na ovulação, que é uma importante fonte de estrogênio para quem os tem. Por tanto, progestinas sintéticas, compostos químicos que se encaixam nos receptores de progestina, são geralmente incluídos em anticoncepcionais para prevenir a ovulação. Em AMABs, progestinas são uma ferramenta útil para bloquear a produção de testosterona.

Um outro tipo de célula cheio de receptores de progestina é o tecido mamário. Progesterona desempenha um papel central no crescimento e maturação de os ductos de leite dentro do tecido mamário. Embora pouca pesquisa formal tenha sido conduzida nos efeitos de progesterona no desenvolvimento mamário, anedotalmente, tem-se visto amplamente na comunidade transfem que progesterona provê significativas melhoras no crescimento dos peitos. Progesterona também já foi demonstrada causar aumento no fluxo sanguíneo para o tecido mamário e encoraja a deposição de gordura nos peitos, duas coisas que aumentam o tamanho deles.

Adicionalmente, progesterona promove melhor sono, melhora a saúde cardiovascular, aumenta a cetogênese (reduzindo triglicérides), aumenta a função metabólica e reduz risco de câncer de mama.

Mineralocorticoides

Mineralocorticoides não desempenham nenhum papel na transição de gênero, mas são dignos de nota por conta de um importante hormônio: Aldosterona.

A aldosterona é o que instrui os rins a pararem de extrair água do fluxo sanguíneo. Ele é produzido pelas glândulas adrenais para regular a hidratação do corpo. Por que isso é significativo?

Because one drug that is very commonly used in trans hormone therapy is an extremely powerful aldosterone antagonist… Spironolactone. Spiro binds to mineralcorticoid receptors more strongly than aldosterone does, but does not activate the receptor. It just clogs it, preventing the kidneys from receiving the signal to stop extracting water.

Porque uma droga muito frequentemente usada em terapia hormonal é uma antagonista extremamente poderosa da aldosterona… a espirolactona. Espiro se liga aos receptores de mineralocorticoides mais fortemente que a aldosterona mas não ativa o receptor. Ela simplesmente o entope, impedindo que os rind recebam o sinal de parar de extrair água.

Por isso que espiro faz as pessoas urinarem tanto.

Introdução à Segunda Puberdade Androgênica

O que esperar da TH Masculinizante

Essa seção é uma compilação de de mudanças relatadas em transição medica coletada de testemunhos de pessoas AFAB trans fazendo hormonioterapia com testosterona. Essa informação é juntada a partir de mídia social e salas de bate papo. Sim, isso significa que é tudo anecdotal, mas, historicamente, a maioria dos estudos de saúde trans é anecdotal porque ninguém quer patrocinar pesquisa médica sobre pessoas trans.

Note que essa é uma lista de mudanças possíveis. Não há garantia de que toda pessoa em TH masculinizante experienciará todas essas mudanças. Sua idade, genética, histórico médico, grau de feminização da puberdade natal, e regime hormonal podem todos impactar seus resultados. Há também um grau de aleatoriedade – todo corpo é diferente – e algumas coisas podem levar anos para aparecer.

Queda de Timbre da Voz

Andrógenos fazem com que o tecido que compõe as cordas vocais engrossem e endureçam, permanentemente abaixando o timbre da voz. Isso não é uma mudança rápida, mas sim incremental ao longo dos primeiros anos. Algumas pessoas não experienciam nenhuma mudança na voz. Isso varia de pessoa para pessoa. A mudança não será drástica, se você é um soprano você não se tornará um baixista, mas isso pode te ajudar a abaixar o timbre ao nível de um contralto ou tenor.

Isso não significa que a sua voz será automaticamente lida como de homem. Timbre é apenas um componente de como as pessoas generizam a voz e a forma como você fala desempenha um papel muito mais importante. Treinamento vocal será necessário para amplificar a ressonância e mudar o estilo de fala.

Mudanças na Localização da Temperatura Corporal

Adam, the ever curious mf'er @AFortune69

@salenby @chaoticgaythey Transpiração noturna e se sentir quente mesmo em temperatura ambiente normal. A transpiração noturna parou aprós uma semana ou duas e a sensação de estar constantemente quente não foi mas apenas virou normal.

Seu cheiro muda, mesmo o cheiro da sua urina. Tipo, eu sabia o que estava aocntecendo, mas isso ainda foi estranho.

Andrógenos encorajam um aumento de fluxo sanguíneo para as extremidades, aquecendo-as. Por conta disso, homens tem centro mais frio mas temperaturas orais e de superfície mais quentes. Você pode ver um aumento na sua temperatura basal. O resultado líquido é que você se sentirá mais quente e provavelmente não será capaz de vestir roupas com tantas camadas quanto antes. Se você vive em climas mais frios, expor suas panturrilhas pode ajudar a dissipar o calor sem te esfriar demasiadamente.

Essa mudança geralmente vem razoavelmente cedo, espere suor noturno enquanto o seu corpo se acostuma com isso.

Mudanças na Transpiração

Com a mudança acima na distribuição de temperatura, isso também resultará em significativas mudanças em como você sua. O suor se concentrará cabeça, costas e axilas. você também suará mais frequentemente então mantenha água por perto.

Odor Corporal

Geralmente as primeiras coisas a mudar são: suor e o odor corporal ficará muito mais forte, especialmente durante atividade física. O cheiro se torna mais azedo e almiscarado. Isso tende a igualar ao longo do tempo.

Pelos, em Todo Lugar

Andrógenos significativamente aumentam a presença de pelos corporais nas pernas, genitais, nádegas, seios, costas e braços. Pelos crescerão mais grossos, longos e escuros. Isso provavelmente acontecerá bem antes do crescimento de pelos faciais, que pode levar mais de um ano para começar. Rogaine / Monoxidil podem ajudar com isso, mas seja cauteloso pois ele é venenoso se ingerido, principalmente para gatos.

Alopécia (Calvície de Padrão Masculino)

Alopécia é causada pela di-hidrotestosterona (DHT), um andrógeno que se metaboliza a partir da testosterona. Ter mais testosterona no seu corpo significa que mais DHT pode se formar e o gene que contribuí para alopécia faz com que os folículos capilares no couro cabeludo recebam menos sangue, estrangulando-os até a morte desses folículos. Provavelmente haverá algum recesso da linha de cabelo eventualmente independentemente do que você faça, porém, se há histórico familiar de calvície dentre os homens da sua família, então você pode esperar ver o mesmo em você. De novo, Rogaine pode ajudar com isso.

O andrógeno sintético nandrolona não metaboliza em DHT e pode ser uma alternativa viável em substituição à testosterona se a perda capilar é uma preocupação. Porém, DHT é importante para crescimento genital, então isso é uma faca de dois gumes.

Pele mais Grossa e Oleosa

A testosterona promove um engrossamento e endurecimento da epiderme, fazendo a pele ficar mais áspera. Conforme os níveis de estrogênio caem, o corpo produz menos colágeno. Isso faz a pele se tornar mais dura e seca (especialmente nos joelhos e cotovelos). veias nas mãos, braços e pernas podem se tornar mais pronunciados, mas não varizes.

Espere que seu rosto e couro cabeludo fiquem mais oleosos. Acne geralmente se torna um problema e não apenas na face. Isso tende a ser pior logo após o início da TH e geralmente melhora com o passar dos anos.

Maiores Mãos e Pés

Ao longo de uns três a cinco anos, as mãos podem se tornar mais duras e com mais calos. Você talvez precise eventualmente aumentar o tamanho dos seus anéis.

A testosterona também faz os ligamentos e tendões reterem mais água, afetando sua flexibilidade. Ao longo do tempo isso pode resultar em um aumento do tamanho dos pés conforme o arco do pé se reduz.

Unhas mais Fortes e Grossas

Tanto as unhas das mãos quanto dos pés crescerão mais grossas com o passar do tempo conforme os níveis de queratina aumentam devido a presença de andrógenos.

Aumento da Massa Muscular

Andrógenos estimulam o crescimento muscular, que é o motivo pelo qual esteroides anabolizantes (que são literalmente testosterona) são tão comuns dentre body builders (fisiculturistas). O corpo irá naturalmente ganhar mais massa muscular sem nem ter que se exercitar, mas com exercícios haverá ganhos substanciais, particularmente nos braços e ombros. Tenha cautela, você não sabe a sua própria força no começo.

O aumento de massa muscular no tronco redefine o ombro e linha do pescoço, criando uma silhueta mais masculine. Isso também melhora a habilidade do corpo de processar lipídeos facilitando a perda de peso.

Redistribuição de Gordura

Enquanto estrogênio encoraja que o corpo deposite a gordura nas coxas, nádegas e quadris, androgênios encorajam o corpo a depositar a gordura no abdomen principalmente. Começar testosterona encorajará que seu corpo siga o padrão androgênico então você pode esperar que nova gordura se deposite sobre a sua barriga enquanto a perda de peso retirará gordura do corpo como um todo. Gordura nos peitos, coxa e nádegas irão lentamente se reduzir conforme músculos se desenvolvem, mas isso pode levar um tempo bem longo.

Mudanças de Características Faciais

Junto com a migração da gordura no corpo, a gordura no rosto também se move. O pescoço e a linha da mandíbulas encherão enquanto os lábios e as bochechas superiores diminuirão. A cor dos olhos também pode mudar e se tornar mais fraca no longo prazo, conforme a testosterona enfraquece a pigmentação da íris.

Isso é extremamente sutil e lento, podendo levar anos, sendo fácil achar que nada está mudando. As maiores mudanças parecem ocorrer nos anos três e quatro. Tire selfies para comparar.

Aumento na Tolerância à Cafeína, Álcool e/ou Psicotrópicos

Maior massa corporal significa mais sangue no qual diluir compostos químicos. Aumentar a testosterona também significa um aumento na taxa metabólica, aumentando a velocidade em que as toxinas são removidas da corrente sanguínea.

Mudanças Mentais

Conforme coberto na seção Disforia Bioquímica, cérebros podem ser configurados a um certo perfil hormonal e rodá-los no perfil errado é como usar um laptop com bateria baixa ou um processador sobreaquecido. Iniciar TH quase universalmente resulta em cessação dos sintomas da despersonalização e desrealização (DPDR) dentro das duas primeiras semanas. A névoa mental saí e se fica mais fácil se concentrar em conceitos complexos (assumindo que você não tenha outras dificuldades de processamento mental como TDAH).

TDAH

Se você tem TDAH, podem haver algumas mudanças nos seus sintomas. Andrógenos amplificam a função dos receptores de dopamina, então aumentar a testosterona pode aumentar o potencial de ativação da dopamina no cérebro. A dopamina também um neurotransmissor chave no comportamento de memória de trabalho: a memória de curto-prazo do cérebro. Mais memória de trabalho significa que você se torna menos propenso a distrações e tem uma maior facilidade em manter o esforço cognitivo.

Entretanto, estradiol encoraja a produção de dopamina, então conforme os níveis de estrogênio caem, haverá menos dopamina para o cérebro. Seus sintomas pioram ao invés de melhorarem.

Expansão Emocional

O alívio de DPDR é quase universalmente acompanhado de uma capacidade muito mais ampla para regulação emocional. Emoções se tornam mais controláveis e suprimíveis, tendo menor probabilidade de causar sobrecarrega de um instante para o outro. Por favor note: suprimir emoções é um jeito bem rápido de desenvolver trauma.

Entretanto, a habilidade de expressas emoção pode se tornar reduzida. Algumas pessoas perdem a capacidade de chorar após começar testosterona, mas isso não é uma experiência universal e pode estar ligado a quão forte é a sua dosagem de testosterona. As razões por trás disso não são bem conhecidas, embora alguns estudos tenham mostrado que andrógenos alteram o funcionamento de partes do cérebro conectadas ao processamento de emoções. Se você perdeu a capacidade de chorar, ela pode voltar no futuro conforme o seu cérebro se aclima e conforme você sai da segunda puberdade.

Blotchkat @blotchkat

@salenby Eu sei que um monte de gente tem esse efeito que eles não conseguem chorar. Mas honestamente, eu estou à beira de chorar agora apenas de pensar em chorar.

Eu estou extremamente sensível e emocional agora de uma forma que eu não me permitia antes.

Eu choro muito, mas agora são sempre lágrimas de alegria.

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Desregulação emocional ocorre mais comumente antes e imediatamente após a aplicação de testosterona (por injeções ou gel) e resulta em paciência reduzida e aumento na agressão.

Aumento de Apetite / Capacidade de Comer

Você vai ficar faminto. Testosterona aumenta significativamente o metabolismo do corpo e o aumento da massa muscular significa que há mais para alimentar então você queimará calorias mais rápido.

Sono

Algumas pessoas relatam problemas com insônia e ter menos memórias de sonhos. Isso, porém, é longe de ser universal.

Elijah ★ (🏳️‍⚧️ Bug/Bugself🏳️‍⚧️) @crypticenbug

@beee_dl @salenby Eu tinha um horário decente de sono antes de começar testosterona, e depois dela [o cronograma] basicamente inverteu

Auto-Confiança

A testosterona é conhecida por um induzir um forte senso de auto-confiança em pessoas. Os problemas parecem menos significativos, a autoestima é maior, há menos ansiedades. Muitas pessoas relatam uma tendência a serem mais propensas a começar discussões, e mais dispostas a falar/denunciar em face de conflitos e a se autodefenderem por palavras. Isso não significa ser mais hostil ou argumentativo, simplesmente a tolerância a merdas fica menor.

Extroversão

É extremamente comum para pessoas trans de todos os tipos se encontrarem muito mais sociáveis pós-transição. Isso pode simplesmente ser resultado de não ter mais que suprimir grandes partes de suas personalidades, mas a autoconfiança supramencionada também desempenha um papel.

Mudanças Genitais

Todas as genitálias são construídas dos mesmos tecidos, eles são meramente organizados de forma distinta durante a gestação. Muito do comportamento desses tecidos é regulado pelos hormônios presentes no corpo. Secreções da pele, texturas, sensitividade e comportamento erétil são todos expressões hormonais. O que significa que quando você adiciona andrógenos, esses tecidos agem como se eles tivessem o formato de um pênis ou escroto, mesmo quando não são.

Crescimento Inferior (Bottom Growth)

DHT (mentioned above) plays a critical role in the development of the erectile tissue within the genitals. As DHT levels rise with the increase in Testosterone, this will cause the Skene’s Gland (sometimes referred to as the female prostate) to swell. This will induce random erections within the clitoris, causing the erectile tissue to grow. The amount of growth varies from person to person, but 1-3 inches is common.

A DHT (acima mencionada) desempenha um papel crítico no desenvolvimento de tecido erétil dentro dos genitais. Como os níveis de DHT aumentam conforme aumenta a testosterona, isso fará que a Glândula de Skene (às vezes chamada de próstata feminina) inche. Isso induzirá ereções aleatórias dentro do clitóris, causando crescimento do tecido erétil. O aumento varia de pessoa para pessoa, mas uma a três polegadas é comum.

Aren @zeghostboy

@salenby @FoxxyGlamKitty Eu estou em testosterona por literalmente uma semana e meia, e tudo o que vou dizer é que o crescimento em baixo e o aumento do libido começa muuuuuito antes do que você pode imaginar.

O capuz clitórico e as lábias se tornarão mais secas e grossas com o passar do tempo, e as lábias interiores também podem começar a produzir pelos. Auto-lubrificação pode reduzir substancialmente e, com o passar do tempo, a penetração pode se tornar dolorosa. Use mais lubrificante para evitar rasgos e sangramentos.

Aumento de Emissões durante o Clímax

Com o inchaço da próstata vem mais fluido prostático. Se você não era um squirter antes, talvez se torne um agora.

Mudanças em Sensitividade e Resposta

Estimulação erógena pode se tornar mais focada na cabeça do clitoris e em bater a haste.

Atrofia

Atrofia vaginal e uterina geralmente acontece dentro dos primeiros cinco anos e uma histerectomia pode se tornar necessária. Sinais de atrofia incluem profunda pulsação no abdomen inferior e dolorosas cólicas sem outros sintomas menstruais, particularmente após a atividade sexual. Atrofia vaginal pode ser evitada através do uso dos mesmos dilatadores vaginais que pessoas AMAB trans usam seguindo vaginoplastia.

Aumento de Libido
Adam, the ever curious mf'er @AFortune69

@salenby @chaoticgaythey As piadas sobre meninos adolescentes sempre estarem com tesão, bem, isso é real. Não incontrolavelmente, entre em encrenca por tesão, mas eu tenho sexo múltiplas vezes por dia...

Também, eu descobri que eu 'percebo' mulheres muito mais agora, eu ainda majoritariamente prefiro homens, mas a proporção tem se ajustado um pouco mais para o centro.

O libido quase certamente irá aos céus pelos primeiros um ou dois anos, sendo mais forte imediatamente após a dosagem. Você pode se encontrar mais assertivo durante o sexo mais propenso a ser dominante ou ativo (top).

Orgasmo
Blotchkat @blotchkat

@salenby Orgasmos serem diferentes foi mencionado e eu tenho que concordar com isso.

Meu clitóris agora realmente funciona como um pequeno pênis.

Então, antes eu teria esses orgasmos que poderiam ser bem intensos, mas nunca satisfatórios. Agora os meus orgasmos são menos intensos, mas é tipo, agora eu sinto que eu "termino".

A “forma” do orgasmo pode mudar. Ao invés de uma cascada, ele se parece mais como um explosão oriunda da virilha.

Atração

Já foi demonstrado que a testosterona aumenta a excitação a partir de estímulos visuais. Por tanto, você pode notar pessoas de sua atração sexual muito mais rapidamente, especialmente se você for ginoafetivo (sente atração à feminilidade).

Cessação da Menstruação

O aumento dos andrógenos dentro do corpo pode fazer o hipotálamo reduzir a produção dos hormônios que controlam os ovários. Isso reduzirá o total de estrogênio disponível e pode parar a ovulação. Sem ovulação e com menores níveis de FSH, o útero será menos propenso a construir e soltar o revestimento uterino, causando cessação do fluxo de sangue da menstruação.

Moony @MoonyXIV

@salenby gatilho menstruação: se vc toma [testosterona] por um tempo e depois para de tomá-la por um tempinho, a sua menstruação vai voltar e ela vai estar BRAVA

Porém, você talvez ainda experiencie outros sintomas menstruais, entretanto, porque o hipotálamo pode continuar a expressar outros aspectos do ciclo menstrual. Isso pode continuar mesmo após uma histerectomia total, embora não seja comum.

Isso não significa que você está infértil! A ovulação pode ocorrer mesmo se você não estiver menstruando. Adicionalmente, parar a testosterona pode fazer os ovários voltarem a funcionar pois eles não morrem.

Introdução à Segunda Puberdade Estrogênica

O que esperar de TH Feminizante

Essa seção é uma compilação de de mudanças relatadas em transição medica coletada de testemunhos de pessoas AMAB trans fazendo hormonioterapia com estrogênio. Essa informação é juntada a partir de mídia social e salas de bate papo. Sim, isso significa que é tudo anecdotal, mas, historicamente, a maioria dos estudos de saúde trans é anecdotal porque ninguém quer patrocinar pesquisa médica sobre pessoas trans.

Note que essa é uma lista de mudanças possíveis. Não há garantia de que toda pessoa em TH masculinizante experienciará todas essas mudanças. Sua idade, genética, histórico médico, grau de feminização da puberdade natal, e regime hormonal podem todos impactar seus resultados. Há também um grau de aleatoriedade – todo corpo é diferente – e algumas coisas podem levar anos para aparecer.

Crescimento de Seios

Apesar das percepções públicas, a maioria das pessoas trasnfem não buscam aumento de mamas, já que isso não é necessário (e para muitas nem está dentro do possível). Todo ser humano nasce com tecido mamário, ele simplesmente permanece inativo sem o estrogênio para fazê-lo crescer. O desenvolvimento tipicamente leva de dois a cinco anos, mas pode continuar por mais de dez anos assim como ocorre em mulheres cisgêneras.

Espere dores nos seios e bastante sensitividade na área ao redor e atrás da areola. Evite esbarrar nas coisa, pois vai doer. Mamilos e areolas se tornam muito mais sensíveis enquanto também se tornam maiores e mais escuros. Você vai querer investir em sutiãs esportivos.

Isso pode ser acompanhado de lactação. Alguma secreção é normal e pode ser esperada conforme os ductos de leite de formam e se abrem, então náo há causa para alarme. Entretanto, descargas significativas de leite sem estimulação intencional pode ser sinal de desbalanço de prolactina então você deve avisar o seu médico caso isso ocorra.

Amaciamento da Pele

A testosterona promove um engrossamento e endurecimento da epiderme então removê-la fará a pele mais fina. Adicionalmente, estrogênio promove a produção de colágeno, o que faz a pele ficar mais macia e iridescente. Espere ver mais veias de varizes nas suas pernas. Tatuagens que ficaram meio apagadas com o tempo podem se tornar mais fortes e claras.

A remoção da testosterona também causa uma severa queda na produção de óleos na pele, particularmente no rosto e couro cabeludo. Isso resulta em redução significativa de acne e/ou caspa.

Aumento de Flexibilidade

Testosterona causa retenção de água nos ligamentos e tendões, fazendo-os menos esticáveis. Remover andrógenos do corpo faz os tendões soltarem esses fluidos e reganharem sua elasticidade.

Mãos e Pulsos mais Finos

As mãos da autora. Essa mudança ocorreu longo de três anos e meio.

Conforme a pele começa a amaciar e afinar, as mãos gradualmente começam a diminuir. Sem testosterona, menos sangue vai para as mãos, causando adicional redução no tamanho de tecidos. O tamanho anelar irá diminuir conforme gordura e fluidos “saem” dos dedos. O comprimento dos dedos diminuí e ligamentos conforme ligamentos se afinam e esticam.

Pés Menores

Tal qual as mãos, os pés também experienciam mudanças de formato. Andrógenos encorajam maior fluxo sanguíneo aos pés e encorajam acumulo de água na cartilagem. Estrogênios permitem que os ligamentos nos pés se estiquem mais. Coletivamente, isso causa aumento no arco do pé, reduzindo o comprimento total por até dois centímetros. Muitas pessoas reportam queda de um ou dois tamanhos de sapato.

Unhas mais Finas e Macias

Unhas são feitas de queratina e muito dos genes de queratina são ativados por receptores de andrógenos, portanto causando unhas mais grossas. A perda da testosterona fará as unhas ficarem mais finas e mais propensas a quebras.

Redução em Pelos Corpóreos

Não espere uma cessação total dos pelos do corpo já que os folículos feitos pela DHT são terminais e continuam dessa forma. Entretanto, tal qual unhas, a grossura dos pelos é uma expressão de genes de queratina ativados por andrógenos. Remover a testosterona faz os pelos se tornarem mais finos e mais claros. Porém, genética desempenha um papel chave aqui.

Changes in Body Temperature Placement

Mudanças na Localização da Temperatura Corporal

Andrógenos encorajam um aumento de fluxo sanguíneo para as extremidades, aquecendo-as. Por conta disso, mulheres tem centro mais quente mas temperaturas orais e de superfície mais frias. Você pode ver uma queda na sua temperatura basal para 36,4 °C.

Isso infelizmente resulta em uma redução na tolerância para o frio, então espere ter que usar mais camadas de roupas com mais frequência, ainda mais porque muitos prédios regulam seus termostatos para níveis de conforto masculino.

Mudanças em Padrões de Transpiração

Com a mudança supramencionada na distribuição de temperatura, isso também significa uma mudança significativa em como uma pessoa sua. O suor se torna uma experiência mais de corpo inteiro, ao invés de uma largamente focada na cabeça e axilas. Suor embaixo dos peitos se torna uma realidade.

Redução e/ou Mudança em Odor Corporal

Um componente importante no odor corporal masculino é a presença do esteroide feromônio androstenodiona no suor. Androstenodiona é metabolizada diretamente da testosterona, então pará-la a remove da fonte. Sem ela, o suor toma um cheiro muito mais doce, que é frequentemente atribuído a odores femininos.

Pessoas tomando espirolactona podem experienciar uma cessação total de qualquer odor corporal devido a forma como a droga altera absorção da cortisol dentro do corpo.

Redução na Massa Muscular

Andrógenos estimulam o crescimento muscular, que é o motivo pelo qual esteroides anabolizantes (que são literalmente testosterona) são tão comuns dentre body builders (fisiculturistas). Pessoas rodando em andrógenos naturalmente tem maior massa muscular, particularmente no tronco, mesmo sem se exercitarem. Remover andrógenos causa atrofia na massa muscular tornando mais difícil o ganho de músculo. Esse é um contribuidor importante no ombro feminino, linha da mandíbula e cintura.

Com isso vem uma queda significativa em força. Carregar coisas se torna mais difícil, jarras de picles se tornam mais difíceis de abrir.

Redistribuição de Gordura em Proporções Femininas

Andrógenos encorajam a deposição de gordura no abdomen, enquanto estrogênio encoraja a deposição de gordura nas coxas, nádegas, e quadris. Trocar o perfil hormonal faz com que novas gorduras sejam depositadas de acordo com o perfil estrogênico e as gorduras armazenadas durante o perfil androgênico se quebram. Isso produz a ilusão de migração de gordura conforme o formato do corpo muda. A linha da cintura se afina e se define abaixo das costelas e a barriga se torna mais macia e plana.

Porque estrogênio deposita o peso muito mais no corpo inferior e a massa muscular no tronco é perdida, isso abaixa o centro de gravidade, o que altera a forma de andar. Se torna mais natural balançar o corpo com os quadris ao andar ao invés de balanças os ombros.

Mudanças de Características Faciais

Junto com a migração de gordura no corpo, a gordura na face também migra. O pesco;co, queixo, e linha da mandíbula se afinam enquanto os lábios e bochechas se incham. As sobrancelhas e pálpebras levantam, expondo mais dos olhos. Mudanças na pele e musculatura ao redor dos olhos podem alterar a forma dos glóbulos oculares, mudando a distância focal e alterando a claridade da visão. A cor dos olhos também pode mudar, tornando-se mais fortes já que a testosterona faz a pigmentação da íris enfraquecer.

Isso é extremamente sutil e lento, podendo levar anos, sendo fácil achar que nada está mudando. Tire selfies para comparar.

Mudanças no Couro Cabeludo

Com a remoção dos andrógenos, o fluxo sanguíneo ao couro cabeludo aumenta. Folículos que foram perdidos para alopécia podem se reativar, causando algum retorno da linha de cabelo e preenchimento de áreas calvas. O cabelo se torna mais grosso e folículos ficam mais fortes, permitindo que o cabelo cresça a maiores comprimentos.

Com esse engrossamento, encaracolamento pode se tornar mais pronunciado e uma mudança na cor do cabelo pode ocorrer. Você pode descobrir que o seu cabelo toma uma textura mais como a dos seus genitores.

Rotação da Pélvis Anterior

Conforme a musculatura atrofia, a flexibilidade do ligamento aumenta e o peso muda mais para a parte inferior do corpo, a orientação do osso da pelvis em relação à coluna e aos femurs se rotaciona para frente. Não é muito, apenas dez a vinte graus, mas apenas o suficiente para causar uma mudança no alinhamento coluna e quadris, aumentando o arco das costas e fazendo as nádegas mais pronunciadas. O arco adicionado às costas pode causar uma redução na altura total, entre dois e cinco centímetros dependendo do formato da pélvis.

Note que isso NÃO é o mesmo que a rotação dos quadris que ocorre na puberdade AFAB e durante a gravidez. Isso é o resultado de migração de células ósseas, alterando o formato do osso pélvico em si. Entretanto, rotação dos quadris pode ocorrer se a pessoa for jovem o bastante para ainda estar dentro da puberdade inicial, na qual o corpo está produzindo elevados níveis de hormônio de crescimento humano. Houve casos de rotação de quadris ocorrendo ao longo de longos períodos de tempo em idosos trans. Em 2017, uma mulher trans de 8 anos relatou no reddit que ao longo de seus 30 anos em TH, seu médico observou mudanças na sua pélvis consistente com rotação de quadris de AFABs.

Redução à Tolerância à Cafeína, Álcool, e/ou Psicotrópicos

Menor massa corporal significa menos sangue no qual diluir compostos químicos. Reduzir a testosterona também significa uma redução na taxa metabólica, reduzindo a velocidade na qual toxinas são extraídas da corrente sanguínea. Alguns anti-andrógenos também colocam um esforço extra no fígado, reduzindo ainda mais a velocidade em que compostos químicos são processados.

Mudanças Mentais

Conforme coberto na seção Disforia Bioquímica, cérebros podem ser configurados a um certo perfil hormonal e rodá-los no perfil errado é como usar um laptop com bateria baixa ou um processador sobreaquecido. Iniciar TH quase universalmente resulta em cessação dos sintomas da despersonalização e desrealização (DPDR) dentro das duas primeiras semanas. A névoa mental saí e se fica mais fácil se concentrar em conceitos complexos (assumindo que você não tenha outras dificuldades de processamento mental como TDAH).

TDAH

Se você tem TDAH, podem haver algumas mudanças nos seus sintomas. Andrógenos amplificam a função dos receptores de dopamina, então reduzir a testosterona pode reduzir o potencial de ativação da dopamina no cérebro. A dopamina também um neurotransmissor chave no comportamento de memória de trabalho: a memória de curto-prazo do cérebro. Menor memória de trabalho significa que você se torna mais propensa a distrações e tem uma maior dificuldade em manter o esforço cognitivo.

A boa notícia é que estradiol faz o cérebro produzir MAIS dopamina.

Nota do Autor:

Há um problema conhecido com Espirolactona atrapalhando a memória de trabalho devido a como ela afeta os mineralocorticoides. Isso pode significativamente piorar problemas com TDAH e torna muito mais difícil manter o foco ou estar ciente dos seus arredores. Eu entive em um acidente de carro em 2017 que eu culpo na névoa da espirolactona.

Expansão Emocional

O alívio de DPDR é quase universalmente acompanhado de uma capacidade muito mais ampla para emoções e expressão. O estoicismo e dissociação saem e emoções impactam com muito maior intensidade. Os altos são mais altos e as baixas mais baixas. Aqueles que, antes da transição, eram incapazes de chorar podem ganhar essa habilidade de volta tanto para tristeza quando alegria.

Infelizmente, isso significa que, se você teve trauma de eventos anteriores na sua vida (e quem não tem?), você pode começar a experienciar episódios de PTSD. Por isso é bom (e em alguns lugares até é obrigatório), ter um terapeuta.

Mudanças de Humor

Conforme os níveis de estrogênio flutuam entre as suas doses, você pode experienciar mudanças de humor notáveis e algumas vezes até dramáticas. Choro inexplicado acontece; fúria de TPM acontece; esteja preparada para isso.

Apetite

Muitas pessoas reportam serem incapazes de comer tanto quanto conseguiam pré-transição. A perda de músculo magro nos braços e ombros significa que o corpo tem uma capacidade reduzida de queimar lipídios e portanto a sensação de saciedade ocorre antes.

Entretanto, progesterona aumenta a função mitocondrial dentro do corpo, aumentando a taxa metabólica. Isso pode causar um aumento de apetite conforme o corpo tenta repor as calorias queimadas.

Dito isso, você pode se encontrar incapaz de comer tanta comida quando antes. Muitas relatam se tornarem cheias/satisfeitas mais cedo que antes.

Sono

Muitas pessoas relatam ter melhores padrões de sono após começar TH. Isso é provavelmente um fator do alívio da DPDR pois parece ocorrer tanto em AMABs trans quanto AFABs trans. Sito isso, iniciar progesterona pode melhorar significativamente o sono, permitindo um sono mais profundo e com mais sonhos.

Extroversão

É extremamente comum para pessoas trans de todos os tipos se encontrarem muito mais sociáveis pós-transição. Isso pode não ser realmente um fator da TH mas sim ser simplesmente um resultado de não ter mais que suprimir grandes partes de suas personalidades.

Melhorias Sensoriais

TH trans já foi mostrado várias vezes causar mudanças na distribuição de matéria cinzenta e branca no cérebro para pessoas trans tanto em TH feminizante quando masculinizante. Novas estruturas e caminhos neuro-vias são formadas como resultado da mudança nos perfis hormonais e isso resulta em mudanças de percepção sensorial. Essas são algumas das mudanças que foram observadas e relatadas, mas não é claro se isso é uma função dos hormônios em si ou um fator do cérebro receber os hormônios corretos.

  • Melhor olfato, especialmente para outros corpos. Suor humano se torna mais discernível, até mesmo avassalador às vezes.
  • Melhor percepção de cores. As cores se tornam mais vibrantes e ricas.
  • Melhor percepção espacial. Muitas pessoas trans experienciam má propriocepção e uma tendência à “falta de jeito” que desaparece após iniciar TH.
  • Mudanças na percepção de gostos. Certas comidas se tornam mais ou menos palatáveis; Coentro, por exemplo, mode se tornar mais ou menos ensaboado. Aumento na tolerância a capsaicina (pimentas). Chocolate e vinho se tornam mais saborosos.

Usuárias de Espirolactona geralmente desenvolvem fortes desejos por comidas fortes em sal, tais como picles, olivas e produtos de batata. Isso é porque Espiro é um diurético poupador de potássio que faz a paciente urinar muito sódio. O cérebro cria eses desejos para lhe encorajar a reabastecer esse sódio.

Mudança Espacial, Auto-Confiança Reduzida

São muito frequentes os relatos de experiencias de se sentir menor no mundo, mesmo quando usando saltos-altos. Pessoas mais altas parecem torres para você e espaços parecem maiores.

Pessoas também relatam uma tendência a serem menos propensas a começarem discussões, e um desejo de evitar confrontos ao invés de criá-los. Já foi demonstrado que a testosterona aumenta a auto-confiança das pessoas e removê-la tem o efeito oposto.

Mudanças Genitais

Todas as genitálias são construídas dos mesmos tecidos, eles são meramente organizados de forma distinta durante a gestação. Muito do comportamento desses tecidos é regulado pelos hormônios presentes no corpo. Secreções da pele, texturas, sensitividade e comportamento erétil são todos expressões hormonais. O que significa que quando você remove andrógenos e adiciona estrogênio, esses tecidos agem como se eles tivessem o formato de um vulva, mesmo quando não são.

Aumento de Sensitividade

A pele na glande e eixo penianos se torna muito mais fina e frágil, sendo mais propensa a cortes e irritação e, ao mesmo tempo, se torna significativamente mais sensível ao toque. O órgão inteiro se torna mais sensível à pressão e vibração se torna uma forma melhor de estimulação quando comparada a batimento o qual pode gerar dor.

Umidade e Odor Feminino

A pele ao longo do eixo começa a secretar os mesmos fluidos que o canal vaginal, particularmente durante excitação (sim, meninas trans podem ficar molhadinhas). Esses fluidos encorajam o desenvolvimento do mesmo microbioma que se desenvolve dentro do canal vaginal. Essa combinação de fatores significa que o odor (e gosto) do pênis muda para se alinhar mais aos da vulva.

Mudanças de Cor e Textura

O escroto é um análogo das lábias menores e maiores e se amacia para tomar uma textura mais macia e veludosa, estendendo para baixo até o períneo. A pele ao longo da rafe perineal (a linha vertical onde havia uma abertura de vulva antes da formação do escroto) também se escurece. Algumas pessoas experienciam uma espécie de padrão de listras ao longo do escroto.

Menos Ereções

Sem a testosterona no sangue, os níveis de DHT na corrente sanguínea caem significativamente. DHT desempenha um papel importante na estimulação de ereções aleatórias durante o sono através do aumento da próstata e essas ereções é que são responsáveis pela manutenção do tecido erétil. Sem DHT, a próstata se reduz novamente e as ereções aleatórias cessam (nada mais de ereções matutinas).

Entretanto, isso significa que o tecido erétil começará a atrofiar. Atrofia prolongada geralmente resulta em redução do órgão inteiro, por bem ou por mal. O formato do pênis muda conforme isso ocorre, ficando mais cônico. A glande é a primeira parte a diminuir pode perder a habilidade de ficar rígida. Sexo penetrativo pode se tornar mais difícil e as ereções em si podem se tornar mais dolorosas.

Isso pode ser contornado através da indução regular de ereções, mas isso pode ficar mais e mais difícil com o passar do tempo.

Ejaculado Transparente

A maioria do líquido que compõe o ejaculado se origina na próstata. É um líquido completamente transparente com uma textura viscosa. A cor branca e a pegajosidade que são geralmente atribuídas ao ejaculado masculino são causadas pelo sêmen e pelo fluido de sêmen dos testículos. A produção tanto de sêmen quanto do fluído dele são um produto da função dos testículos, logo, conforme os testículos desligam (seja por conta dos anti-andrógenos ou a dominância do estrogênio), esses fluídos param, deixando apenas o fluido prostático.

Algumas pessoas perdem até mesmo isso e deixam de ter qualquer emissão durante todo o orgasmo.

Não precisa nem dizer, mas com isso vem a esterilidade. Ao contrário do que algumas fontes reportam, isso não é permanente e muitas pessoas conseguiram restaurar sua função testicular por suspensão da hormonioterapia, tanto para destransição quanto para propósitos reprodutivos.

Atrofia Testicular

Quando as testis param de funcionar, suas células começam a atrofiar, diminuindo com o passar do tempo. Essa atrofia pode ser acompanhada de dor, às vezes na forma de uma estado doloroso ou uma sensação latejante fraca, ou às vezes registrando como pequenas fagulhas de dor que viajam ao longo do nervo perineal dos testículos ao reto.

Mudanças Sexuais

No início de TH pode haver uma perda total de interesse sexual conforme os níveis de testosterona caem. Isso pode durar de três a doze meses, e, em alguns casos, pode nunca voltar. Começar progesterona geralmente serve como catalisador para o retorno do desejo sexual. Se/quando ele voltar, o novo libido que pode ser uma experiência completamente diferente ao ponto de nem ser reconhecido de cara.

Elevadas Zonas Erógenas

Zonas Humanas Erógenas:

O corpo inteiro se torna mais responsivo ao toque e com isso destravam-se zonas erógenas mais fortes. Peitos, abdomen, coxas interiores e pescoço, em particular, se tornam mais indutoras de excitação.

Orgasmo

Orgasmos mudam significativamente, tanto na forma como se constroem e como ele é experienciado (veja o link acima), mas, adicionalmente, se a pessoa for sortuda, ela pode ganhar a habilidade de se tornar multi-orgásmica sem período refratário. O custo disso é que pode ser mais difícil de chegar ao orgasmo e é preciso reaprender como alcançá-lo. Isso se torna mais fácil com une parceire, o que pode ser o oposto do que era no passado.

Atração

Não são desconhecidos os relatos de pessoas trans terem mudança em sua atração sexual com a transição. Isso quase sempre é o resultado de remoção barreiras mentais auto-impostas, mas a hormonioterapia geralmente desempenha um papel nessa remoção. Em quase todos os casos, isso simplesmente envolve uma expansão da atração, de monoafetiva para bi ou pan, mas algumas pessoas também descobrem que suas atrações eram amplamente baseadas em auto-interesse e que sua verdadeira tração é revertida.

Sintomas Clínicos Similares à Menstruação

Obviamente nós não temos fluxo sanguíneo menstrual, isso seria ridículo. Sintomas variam muito (tal qual eles variam em mulheres cisgêneras) e tipicamente duram de dois a quatro dias, repetindo a cada 26-32 dias (porém algumas pessoas reportam senti-los a cada duas semanas). Isso acontece independentemente de cronogramas de dosagem de medicação. O uso de um app como o Clue pode revelar esse padrão.

  • Cólicas/cãibras nos músculos do intestino e abdomen, variando de uma leve vibração no intestino até fortes e dolorosos espasmos.
  • Inchamento e retenção de água.
  • Gás, diarreia e outros problemas intestinais.
  • Instabilidade emocional, alterações emocionais e pensamentos irracionais.
    • Aumento da depressão e dismorfia.
    • Despersonalização ou desrealização.
    • Aumento na disforia.
    • Irritabilidade (TPM).
  • Dores musculares ou nas articulações.
  • Ingurgitamento (inchaço) dos peitos e sensibilidade dos mamilos.
  • Acne.
  • Fatiga.
  • Mudanças de apetite, desejos espontâneos (vide: desejo por chocolate).
  • Mudanças espontâneas no libido.
  • Mudanças no odor genital.

Não, não houve ainda estudos nisso, mas esses sintomas foram reportados por muitíssimas pessoas (incluindo a autora e a tradutora desse documento) para ser uma anomalia e foi confirmado pelos médicos de múltiplas pessoas. Há também precedente para isso ocorrendo em mulheres cis que tiveram histerectomia. (Eu pessoalmente conheço duas mulheres cis que tem ciclos mas não menstruam, sem qualquer intervenção médica.)

Rodar em estrogênio e progesterona atica uma sequência de genes que instruí o hipotálamo a tentar fazer um ciclo com o comportamento dos ovários e útero tal qual em AFABs, independentemente da ausência de ovários ou de um útero. Esse ciclo afeta diversos órgãos e subsistemas no corpo, causando a liberação de uma variedade de diferentes hormônios e enzimas que podem afetar o funcionamento e até o comportamento.

Uma explicação mais detalhada disso virá em uma atualização futura deste site.

Conclusão

A cada anos nós vemos novos estudos que mostram um aumento no tamanho da população trans. Conforme o reconhecimento continua a crescer, mais e mais pessoas percebem que elas estiveram erradas com suas livas e estão saindo do armário. Pessoas que transicionaram décadas atrás estão deixando de ser stealth (viver como se fosse cis, escondendo a sua transgeneridade apesar de já ter transicionado). A GLAAD estima que até 3% da população pode ser transgênera, e eu já vi números tão altos quando 5% ou até 10% vindos de estimativas mais liberais. Quanto mais nós entendermos sobre gênero, quanto mais linguagem ganhamos para descrever gênero, mais pessoas percebem que a estrutural sexual rígida homem e mulher, na qual fomos forçados, é falsa.

Ainda assim, essa mudança assusta as pessoas. Isso assusta conservadores que veem suas estruturas sociais patriarcais se dissolvendo sob um novo entendimento de gênero. Isso assusta pessoas transgêneras antigas que transicionaram sob as regras Harry Benjamin e agora veem tantas pessoas conseguindo obter o que elas tiveram que atuar e manipular para conquistar. Elas temem que se qualquer um pode ser trans, então o público parará de levar as pessoas trans à sério. Isso assusta grupos misóginos trans-exclusionários que lutam tão duro para invalidar direitos trans porque eles temem que, se qualquer um pode ser homem ou mulher, então seus status como homem ou mulher é prejudicado.

Não existe nem “transtrender” nem “modinha de ser trans”.

Não existe “Disforia de Gênero de Início Rápido”.

Não existe ninguém tentando “transificar” crianças.

Essas mentalidades tem que parar.